Por Carlos Magno – RUA SEM NOME

Há muito tempo que nutria o desejo de escrever sobre uma rua sem nome, que existe aqui no centro de nossa cidade. Não só pelo fato de despertar nas pessoas, que não têm a mínima noção de que a rua que passam todos os dias, não tem nome, mas, de aproveitar o ensejo para contar algumas passagens da história da cidade, para muitos e bota muitos nisso, pois 90% das pessoas que falamos sobre o assunto desconhece os acontecimentos que precederam ao cenário em que hoje chegamos, mas, também, esperando uma providencia, há anos, de quem deveria resolver o problema,  e abrir os olhos de quem deve enxergar a real situação da rua a que me refiro.

Escritor e notário Carlos Magno

Para que fique bem claro aos leitores, antes vou me referir primeiro as praças que tinham ligação com a rua. Desde criança, convivi diariamente na nossa cidade, com duas praças tradicionais siamesas, pois eram ligadas apenas por uma passagem de uns três a quatro metros, mais ou menos, por onde transitavam veículos. Estas duas praças, arborizadas, chamavam-se Praça Rio Branco e Praça José Mariano Barros da Silva, que se situavam entre a Rua Afonso Pena até a Rua 7 de Setembro, onde seguia paralela a elas e ainda hoje existe, uma rua, que não tinha nome pois era parte integrante das duas praças, e que continua sem denominação. Para corroborar com o que me reporto, as casas comerciais ali existentes na aludida rua, tinham como endereço as praças. Ainda hoje, mesmo não existindo mais as praças, as casas comerciais, que aumentaram consideravelmente, situadas ao longo da rua citada, continuam com endereço de praça e não de rua.

Para ter mais verossimilhança com o que afirmo acima, estive em todas lojas comerciais ao longo da mencionada rua, fazendo uma pesquisa, e pasmem, constatei que algumas recebem contas de luz e água com endereços diversos. Umas como Praça Rio Branco, outras como Praça Mariano Barros e até com o nome de Rua Rio Branco, que não existe. Quando diziam-me que o endereço era praça, eu perguntava: onde está a praça?

Antes de descrever os reais motivos desse artigo, vou contar mais um pouco de história. Ao lado da Praça Rio Branco existiam edificações onde funcionava a agencia do Banco do Brasil, e no mesmo prédio uma residência contigua, mais ao lado uma residência que foi do Sr. Abimael Braga, e ligada mais no final, canto com a Rua 7 de Setembro, uma casa residencial do sr. Osvaldo Santos, que foi Prefeito da cidade, ambas de frente para a Rua Afonso Pena. Todas essas edificações ficavam com fundos para a Praça Mariano Barros, e foram demolidas, sendo construído em seu lugar e tomando toda a praça, o prédio do Armazém Paraíba, que hoje conhecemos.

As praças alegadas, foram palco de muitos acontecimentos na cidade, como por exemplo: na Praça Rio Branco eram realizados shows, comícios, e servia, também, como estacionamento de veículos. Na Praça Mariano Barros, existia uma quadra de esportes, onde ali realizaram-se grandes torneios de vôlei e futebol de salão, bem como realizavam-se festas juninas com apresentação de quadrilhas e muitos outros eventos.

Aí vem a pergunta: o que tem isso a ver com a Rua?

Antes de responder devo dizer que essas praças existiam há mais de 90 (noventa) anos ou talvez desde a emancipação da cidade. Eram, portanto, um patrimônio histórico que desapareceu, que por ali passearam muitas gerações.

A Praça Rio Branco foi vendida ao Armazém Paraíba, que também adquiriu os outros prédios construindo um centro comercial que hoje todos nós conhecemos,

A Praça José Mariano Barros, foi sendo depredada e abandonada, sem a mínima conservação pelo Poder Público, tendo sido, em dado momento, lá pelos anos 70, em nome do progresso, cedida pela Prefeitura, em comodato, a empresa de telefonia interurbana Telma, que para se instalar na cidade, exigia que fosse em uma praça. A escolhida foi justamente a Mariano Barros, que ficava no centro da cidade e seria mais cômodo para os usuários. A empresa cercou toda a praça e construiu um prédio, em apenas um quarto do espaço desta, onde foram instaladas cabines de telefonia interurbana. E assim a nossa cidade foi perdendo a sua identidade histórica.

Anos depois, com o desenvolvimento da telefonia, pois a empresa Telma foi transformada em Telemar e vendida a empresa OI, o prédio foi fechado, pois perdeu a sua finalidade, em razão dos telefones residenciais poderem fazer ligações interurbanas. O que se sabe é que a praça foi vendida e hoje, em seu lugar, encontra-se nela edificado, em sua totalidade, um prédio onde está instalada a Drogaria GLOBO.

Voltamos então a finalidade do artigo. O que foi explicitado acima serve como base para o leitor tirar a sua conclusão do porque menciono a rua sem nome. Com o desaparecimento das duas praças, sobrou a rua que mencionei antes. Essa rua a qual faço alusão, inicia na Rua Afonso Pena, no prédio do Bradesco e vai até ao encontro da Praça Naby Salem com a Rua 7 de Setembro, entre o Cartório do 3º Oficio e a Impacto Calçados.

Como se admitir, numa cidade que se estima tenha uma população de mais ou menos 130.000 habitantes, exista uma rua, com grande movimento de veículos e pessoas, no centro da cidade, que não tem nome, há muitos anos. E, inacreditavelmente, este fato vem passando, ao longo desses anos, desapercebido pelas autoridades competentes. E o que eu  acho caricato é que os órgãos oficiais prestadores de serviços, como água, energia e telefone nunca se preocuparam em saber, na verdade, o real endereço de seus consumidores daquela rua.

A falta do nome de uma rua provoca alguns transtornos, como por exemplo: receber uma correspondência, ou pedir um botijão de gás ou outro serviço de entrega a domicilio, não são tarefas fáceis para quem mora numa rua que não tem nome. Felizmente na rua em comento, não existem residências, somente casas comerciais, cujos endereços, como mencionei acima, constam como se fosse praça.

Minha curiosidade vai mais adiante, como a CEMAR designa o endereço na conta de energia e o SAAE como determina em suas contas o endereço do consumidor, na rua alegada?

Fica ai um alerta para, talvez, pessoas desavisadas, e com competência para tal, possam tomar uma atitude e colocar um nome nessa rua, de alguma figura que, ou foi muito conhecida na cidade ou se destacou realizando benemerências, já falecida, pois a lei não permite a colocação de nomes de pessoas vivas em logradouros públicos.

Carlos Magno da Veiga Gonçalves – notário

2 comentários sobre “Por Carlos Magno – RUA SEM NOME”

  1. Grande e notável, Dr. Carlos Magno. Como sempre nos brindando com seu admirável conhecimento, histórico e antropológico. Ao mesmo tempo em que faz uma crítica construtiva, é claro, enriquece nossos conhecimentos acerca da nossa querida e amada cidade. Grande Professor. Parabéns pela sua bela exposição.

Deixe uma resposta