DESAPRENDER E REAPRENDER: Considerações para uma compreensão histórica da realidade sociocultural da classe trabalhadora

Professor Jacinto Junior - um pensador contemporâneo
Professor Jacinto Junior – um pensador contemporâneo

O mais perfeito artificio apreendido pelo homem foi descobrir a teoria. A teoria como processo mediador para encontrar a liberdade; liberdade essa que se apoia no método do pensamento livre. O homem trás consigo a sina da luta permanente por sua sobrevivência e, isso, o induz a se relacionar de forma interpessoal. Tal relação implica uma condição social: ser um sujeito autônomo. Creio ser este o elemento crucial para que a relação social dada entre sujeitos históricos distintos e de distintas classes sociais aprimorem os laços de solidariedade.

O principio reciproco – ético – da relação social tem de ser equilibrado para não originar a antipatia, o ódio, entretanto, tal fato me parece ser impossível de se materializar, devido às condições a que são submetidos os sujeitos sociais nas estruturas piramidal existentes. Algumas categorias são tão visíveis do ponto vista sociológico que embrutece até mesmo a noção de respeito e solidariedade. A presença cada vez mais intensa da intolerância, do preconceito e da discriminação alcança literalmente nossa capacidade de livre arbítrio e compromete ferozmente o conceito primoroso da solidariedade.

A posmodernidade revela sua face cruel: a quebra contínua e descontrolada de todas as formas, modos e ambientes de vida socialmente construída ao longo do tempo. O argumento fundamental que sustenta tal descontrole é a notável tese do chamado relativismo. Ora, se no passado tivemos o positivismo como caminho inapelável para o progresso, agora, o centro do desenvolvimento tem no relativismo sua moeda de ouro.

Mas, nem tudo que é considerado relativo é passível de modificação pura e simplesmente, pois existe um conjunto de experiências que nos mostra a sua imutabilidade. Por exemplo: a natureza como um todo – para simplificar ainda mais o exemplo, à medida que o sistema capitalista avança e empreende seu projeto destrutivo de desenvolvimento fabril, por um lado, gera uma falsa ideia de desenvolvimento sustentável, quando, na realidade, o corte é profundamente danoso para a humanidade e, consequentemente, para a própria natureza e, por outro, a aceitação natural de tal engenho por parte da sociedade que, aparentemente, compreende tal esforço capitalista como benévolo a si – vem sofrendo terrivelmente com essas ações gigantescas. Outro exemplo, o aquecimento global, as grandes inundações e o desequilíbrio das estações, são frutos daquilo que denomino de consenso do ‘capital relativista global’[1]. O circulo vicioso que atua vigorosamente no planeta sem nenhum pudor, revela sua sanha incontrolável: a destruição silente da humanidade.

Ora, essa realidade é inconteste.

Penso que é hora do homem livre se redimir de sua sujeição passiva e, desaprender os atuais conceitos relativistas que estão sendo embutidos e disseminados pelos inusitados pensadores do desenvolvimentismo econômico destrutivo.

Desaprender e reaprender, eis as palavras-chave para o homem livre contemporâneo reinaugurar sua história e reestruturar seu pensamento independente. Desaprender tudo aquilo que lhe fora ensinado como bom e perfeito, quando, no fundo, as consequências do processo social sob a orientação do capital apontam para o retrocesso, estagnação e para a destruição. Desaprender a ideologia apregoada pelos adoradores do capital de que tudo o que se tem feito é em beneficio do homem, quando, na realidade, tudo o que se fez foi nada mais do que a promoção do capital em detrimento do próprio homem. O capital tornou-se o centro da gravidade humana de forma impositiva. Tudo tem de estar subordinado ao capital, inclusive, a vida humana! Desaprender a lógica da individualidade é o fio da meada que falta para o homem compreender sua dimensão como ser coletivo que deve respeitar o seu semelhante como tal e não ser seu inimigo por conta do desumano capital. Reaprender a concepção da sensibilidade, reaprender o sentido da lealdade, reaprender o modo de vida que valoriza a simplicidade, reaprender o valor da comunidade, reaprender a cultura que esteja diretamente ligada a você e não ao outrem – do ponto de vista de classes – ou seja, aquela cultura que alimenta a alma do despossuído de capital e que desvaloriza a do possuidor do capital ‘desinteressado’.

O ato de desaprender e reaprender simultaneamente constitui a pedra de toque para o homem sentir-se plena e socialmente realizado, pois ele estabeleceu uma ruptura cultural com os parâmetros tradicionais e passa para uma fase de desenvolvimento completamente restauradora. Sentir-se-á fortalecido em todos os sentidos e isso é a liberdade internalizada em sua grande alma. Desaprender a amar o capital como se fosse a um deus. Reaprender a ter capital como instrumento para garantir a existência de forma humana e respeitosamente. Desaprender a conceber o ideal perfeito quando a natureza humana é imperfeita por si mesma. Reaprender a conviver com a diferença e, no melhor dos casos, eliminar o egoísmo exacerbado, a intolerância estupida da religiosidade, o preconceito desnecessário racial, enfim, reaprender a corrigir os princípios invertidos pela lógica do capital.

O capital é a sombra negativa que produz e traduz todas as maledicências ao homem e a natureza indistintamente, alternando-lhes suas feições.

Desaprender e reaprender imprime uma nova filosofia para o homem verdadeiramente livre, e mais do que isso, é a linha tênue da cosmovisão política real de nosso tempo renovado. A cultura popular precede ao ato de desaprender e reaprender o sentido humano do mundo invertido e livre do capital.

[1] Tal categoria insere a concepção no contexto em que o sistema capitalista se articula mundialmente seguindo a padronização da modernização tecnológica, interligando-se automaticamente às redes sociais, principalmente, monitorando, mutuamente, suas ações nos mercados (especialmente, as commodities). Os capitalistas, portanto, integram uma ação com uma única preocupação: gerar lucros com o capital especulativo e não com o capital produtivo e, por conta disso, pressionam os governos de todo mundo a tomarem medidas amargas e excludentes – as chamadas medidas austeras e fiscais.

4 comentários sobre “DESAPRENDER E REAPRENDER: Considerações para uma compreensão histórica da realidade sociocultural da classe trabalhadora”

  1. Prof. Jacinto Jr.
    Ao ler sua reflexão vejo o quanto nosso sistema está distante da solidariedade, e muito mais distante da transcendência espiritual, tão defendida por Leonardo Bof, e necessária para a pós modernidade.
    Nossa sociedade planetária precisa urgente reaprender a viver, a conviver, a relacionar – se com tudo e com todos.
    Infelizmente a lógica da produção capitalista tem como lema “haja lucro e pereça o mundo” e com nossa comunidade corrompida que insiste em manter paradigmas ultrapassados, em um tempo seremos uma sociedade totalmente insustentável pela perda de valores humanos essenciais, e a Terra será um planeta morto, estéril e testemunha muda do que foi o progresso e a racionalidade humana baseada na produção do capital instalado no mundo através da expansão comercial.
    Excelente texto essa sua produção uma reflexão autêntica.

  2. De fato, Dr. Evannildo Rodrigues o mundo posmoderno já perdeu a noção de civilidade. Entrementes entendo ser fundamental reavaliarmos o conceito de progresso. Resta-nos apenas uma alternativa: convencer os capitalistas a recompor os destroços da natureza gerados por uma ideia única: lucro sobre lucro para obter a mais-valia. Que pena que o sistema politico estrutural apoiado na concepção neoliberal sustente tal cultura: a completa destruição da mãe-terra.

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