RACISMO – Gol impedido

As ideias de Gilberto Freire desmobilizaram o fatalismo racial defendido por alguns e a miscigenação, antes condenada, ganhou status de demonstração da tolerância étnico-racial do Brasil.

Por isso, a obra de Freire contribuiu decisivamente para a desconstrução de um conjunto de ideias que condenava a população brasileira ao atraso, ao desaparecimento e a impossibilidade de construção de uma nação. Mas criou ideia da ausência de preconceito e de discriminação racial.

Em uma passagem do clássico Casa Grande Senzala, ele descreve: “Vê-se quanto foi prudente e sensata a política social seguida no Brasil com relação aos escravos. A religião tornou-se o ponto de encontro e de confraternização entre as duas culturas, a do senhor e a do negro; e nunca uma intransponível ou dura barreira. Os próprios padres proclamavam a vantagem de concederem-se aos negros seus folguedos africanos. Um deles, jesuíta, escrevendo no século XVIII, aconselhava os senhores não só a permitirem, como a colaborarem com suas festas de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito”.

O argumento de uma convivência “harmônica” entre senhores e escravos exposto pelo autor de Sobrados e Mucambos será recorrente em sua obra. Mas, se essa harmonia tivesse existido de fato não haveriam surgidos tantos quilombos espalhados por todo país.

A ideia de “Democracia Racial”, defendida por Freire, seria mais tarde questionada por uma série de pesquisadores. Esses pesquisadores criticaram a tentativa de construção de um paraíso racial e demonstraram que o racismo no Brasil tomava feições diferentes em relação a outros países, mas não era inexistente.

O escritor Joel Rufino caracteriza bem o racismo brasileiro: “O nosso racismo é envergonhado, tanto que alguém acusado de preconceito e discriminação racial se defende dizendo que tem amigos e, às vezes, até parentes negros”. Portanto, o racismo no “país do futebol” é do tipo que se envergonha de existir.

Outro exemplo do nosso racismo “cordial” são as marchinhas de carnaval que contribuíram para reproduzir e popularizar conteúdos racistas. Uma das mais conhecidas e cantadas até hoje diz em um dos seus refrãos: “O teu cabelo não nega, mulata, porque és mulata na cor, mas como a cor não pega, mulata, mulata eu quero o teu amor”.

Diferente do racismo envergando relatado por Rufino, as marchinhas criaram um tipo de racismo recreativo. Tanto este como aquele são reprováveis.

O professor Kabengele Munanga chama atenção para o racismo brasileiro como sendo implícito e sutil. E o fato de não ter existido no Brasil leis segregacionistas como tiveram Estado Unidos e África do Sul contribuiu para tornar esse crime pouco aparente.

No Brasil, as pessoas têm “preconceito de ter preconceito” e por isso todos ostentam filosoficamente uma visão liberal, mas as posturas, discursos e práticas denunciam o contrário.

O racismo é um gol impedido que devemos continuar refletindo, denunciando, problematizando, combatendo, discutindo e jamais naturalizando, achando normal, cartão vermelho para ele.

Por Francisco da Silva Paiva

Um comentário sobre “RACISMO – Gol impedido”

  1. Acelio todos os processos de libertação do mundo, foram com muita luta e sangue, só aqui no Brasil foi a caneta, ops…. a lápis. É porisso que o negro no Brasil ainda carece de ajuda, mais de 100 anos depois e eles (os negros) se acham que está ainda nas senzalas. Uma pena. Mas o processo aqui no Brasil ainda está em andamento.

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