“Um lápis, um caderno, um professor e um livro, pode transformar o mundo” (Frase de Malala, na ONU, vencedora do Prêmio Nobel de 2014).

A partir de um documentário produzido e dirigido por Davis Guggenheim (2016) sobre a vida e a luta de Malala – uma criança paquistanesa que sofreu um atentado por membros do movimento fundamentalista político-religioso Talibã – que se rebelou contra a cultura machista e tradicional islâmica de que a mulher não pode frequentar escola (estudar), decidi rabiscar o presente texto com o propósito de refletir sobre o nosso delicado sistema de ensino.

Professor Jacinto Junior – um pensador contemporâneo

O Brasil e o mundo precisam de uma Malala, aliás, precisam de dezenas e centenas de Malalas que se preocupem com a questão educacional em sua dimensão fundamental: a garantia, o acesso e a permanência das crianças de classe popular em escolas públicas com qualidade e equidade social.

O direito à educação é um direito transuniversal – isto é, todo homem, toda mulher, todo jovem, todo idoso, toda criança e adolescente em qualquer parte do planeta Terra-Mãe tem o sagrado direito de aprender a ler e a escrever; ter um banco, uma cadeira e uma carteira, ou, até mesmo, o próprio chão batido como suporte para aprender a aprender.

Como educador fico profundamente inquieto e ansioso quando olho em nosso derredor e vejo uma realidade caótica em que dezenas e centenas de crianças estão fora da sala de aula. Porém, o mais agravante é constatar a ineficiência do poder público em operacionalizar uma política ousada e progressista para suprimir esse quadro horrendo. Uma observação marginal: nosso país não tem movimentos guerrilheiros, não possui ramificações de facções fundamentalistas suicidas e menos ainda, governos autoritários que impedem a garantia de um sistema importante como o educacional e seu pleno desenvolvimento; portanto, a pergunta: por que vivemos submerso em uma crise sistêmica de nossa educação?

A garantia constitucional da educação básica evoca a todos nós, a uma consciência social de punir a quem proíbe a quem quer que seja de ter o direito elementar de acesso a uma escola – ou, pelo menos, deveria ser assim. Independentemente da cor, da crença religiosa, da origem social – econômica política e cultural – o que deve prevalecer como meta prioritária é a presença da criança dentro de uma escola. E o poder público garantindo sua boa execução.

Cabe aqui uma indagação oportuna para desmistificar essa triste e dramática realidade social: apesar de existir recursos financeiros suficientes nos cofres dos governos: municipal estadual e federal, para o investimento no setor educacional, por que ainda persistem problemas de natureza histórica que nunca foram resolvidos? Escolas tão antigas que nunca foram reformadas? Quadro de profissionais sem formação continuada – e sistematizada -para atualizar a prática pedagógica em sala de aula e, assim, proporcionando a melhoria da qualidade do ensino?

Vislumbro pelo menos duas perspectivas que se entrecruzam e geram essas condições adversas: a primeira e a mais importante é a vontade política do dirigente executivo em realizar as políticas públicas educacionais; e, a segunda, a ausência da transparência. Se, de um lado, não há nenhuma vontade política para o governo desembocar um conjunto de ações para inverter a lógica das estatísticas negativas, a tendência é aprofundar a crise e, como consequência, a falência do sistema de ensino. E, de outro, a necessidade de se estabelecer um processo de discussão compartilhado, ou seja, em que os distintos atores estejam integrados sistematicamente para elaborar alternativas que resultem na qualidade do processo ensino aprendizagem. Isto requer, literalmente, que haja um esforço candente para a presença de novos modos e mecanismos de ensinagens para as crianças; cujos resultados é a presença garantida das mesmas nas escolas com agudo interesse em querer aprofundar seus conhecimentos e saberes mediante tais processos inseridos nas salas de aula enriquecendo-as.

Nesse processo de formação cidadã da criança que, na grande maioria são oriundas de classes populares vivenciam a terrível experiência da negação de um direito básico para garantir um futuro melhor e digno.

Portanto, a educação é uma condicionante indispensável para a promoção da criança e um meio para sua ascensão social. Por ser a porta essencial para a cidadania a criança deve mirar com determinação e coragem ao processo de aprendizagem irrompendo com as barreiras que as amarram intelectualmente tais como: a histórica crença na incapacidade para aprender Matemática e Português – ambas disciplinas, são consideradas os ‘bicho papão’ da criançada e a principal causa de reprovação e abandono nas escolas públicas.

A criança tem a responsabilidade de aprender a aprender e o Estado de ofertar o ensino em estrita obediência ao que dita a letra constitucional. Contudo, é perceptível a evasiva do aparelho do estado quando o sentido é investir maciçamente no setor. Encontram-se variáveis diversas para não garantir plenamente o necessário investimento que poderia oportunizar uma vida plena a essas crianças para o engrandecimento de nosso país, de nosso estado e, consequentemente, de nosso município. Recuperar o tempo perdido e proporcionar a retomada do desenvolvimento só será possível com uma educação de qualidade e com equidade social. Nossa futura geração estará comprometida se não se repensar uma educação pautada no acesso às escolas e com qualidade do ensino.

Estamos no limiar do século 21 – na realidade, estamos chegando ao final da segunda década deste novo milênio – e, quiçá, encontremos elementos contundentes para retomar a perspectiva de uma revolução no campo educacional em nossa cidade. É simplesmente dramático não pensar numa sociedade futura, prospera e autônoma sem a presença de um processo educacional altamente revolucionário. A revolução a que me refiro – não conspira contra a elite portentosa e que mantem o poder há séculos sob seu completo domínio – ao contrário conspira contra a ausência de investimento financeiro para quantificar e qualificar o sistema de ensino.

O homem precisa aperfeiçoar a técnica e, para isso, é fundamental a educação como componente para processar esse aprendizado (pois o ato de estudar estabelece no sujeito a capacidade reflexiva e dialética para compreender enfaticamente os processos sociais que necessariamente precisam ser manipulados e compreendidos – operacionalizados – e, por isso mesmo, é indispensável que o homem tenha o completo domínio da leitura, da escrita e do cálculo; buscando, sistematicamente aprofundar seus conhecimentos).

Temos exemplos em grande monta – de vários países – demonstrando que a educação é o principal núcleo para equalizar o desenvolvimento social. Por conseguinte, a educação é o pendulo revolucionário para civilizar o animal homem, transformando-o sob a égide do respeito e da decência. Só a educação tem essa primazia, esse insubstituível conectivo da vida soberana. O homem como produto da educação com qualidade e equidade social reproduzirá uma imagem positiva de seu tempo e de sua própria existência e nada poderá ultrajar esse percurso magnânimo projetado. O homem multiprocessado – i. é., letrado, refinado na cultura e no conhecimento científico – não pensa viver sob condições inferiores.

2 Responses

  1. Ainda não havia lido um texto tão esclarecedor nesse blog..Mas escrito pelo senhor Prof Jacinto é mais esclarecedor ainda.Muito real…e serve para quem faz educação em Codó..refletir.

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