
A promulgação do Dia Municipal do Terecô em Codó trouxe à tona uma celebração histórica, mas também reacendeu o debate urgente sobre a intolerância que ainda sufoca a cultura e a fé de matriz africana na região.
Durante a cobertura do evento, conversei com a historiadora e professora codoense Dácia Abreu, uma das vozes mais lúcidas e contundentes sobre as dinâmicas raciais e socioculturais do nosso município.
Ao ser questionada se a discriminação contra a Umbanda e o Terecô ainda persiste na cidade, a resposta da educadora foi firme, sem rodeios e desprovida de qualquer eufemismo.
”É sim, né? A gente também ocupa o espaço de professor em sala de aula na questão do 6º ao 9º ano, que é a educação pública municipal, e constantemente a gente vê o Terecô ser tratado como um folclore local, não como um elemento que é fundante para nossa identidade de afrocodóense, de codoenses como um todo”, frisou
Dácia Abreu fundamenta sua análise na profunda conexão histórica que estrutura a sociedade codoense, lembrando que a negação da ancestralidade não apaga a sua presença na formação do povo.
”Por mais que você não seja um codóense negro, quilombola, de terreiro, você ainda bebe da ancestralidade desse saber que vem desses antepassados que foram escravizados e que fundam o Terecô, juntamente, claro, com os povos originários, com os povos indígenas”, disse-me.
DO MARCO LEGAL às PRÁTICAS EFETIVAS
Indagada sobre os caminhos e alternativas para diminuir essa hostilidade até que ela seja erradicada, a historiadora pontuou a distância que ainda existe entre a legislação vigente e a sua aplicação prática e contínua nas salas de aula.
”Olha, a gente tem compromisso firmado pelo próprio Brasil há mais de vinte anos com a Lei 10.639/2003. A cidade de Codó tem estruturado um mecanismo legal para efetivar isso, mas não está a contento o modo como o passo a passo vem sendo feito, a questão do tempo, a demora. Algumas experiências de educação de combate ao racismo existem na cidade. Elas são representadas através de vídeos, atividades escolares, projetos. Falta é estruturar e sistematizar, fazer disso uma política pública, não atuações e eventos, ações de pessoas pontuais”, criticou
PARA ALÉM DO TERECÔ
O texto da lei municipal que institui a data, 10 de julho, prevê ações integradas como seminários, oficinas e visitas escolares ao longo de toda uma semana.
Embora tais atividades ainda não tenham sido plenamente executadas neste primeiro ano, a historiadora reforçou que o sentido do marco legal depende diretamente dessas ações formadoras.
”Pensar como é que a gente vai fazer essa data comemorativa… A gente esperava um feriado, um ponto facultativo, ganhamos apenas uma data comemorativa. Como é que essa data comemorativa vai ter significado e importância, tanto para agora, mas para as gerações futuras? É justamente fazer esse dever de casa de letrar racialmente a sociedade codoense, para que a gente possa superar a discriminação do dia a dia”, concluiu Dácia Abreu
A DOR DO PRECONCEITO e a Força Tricentenária
A vivência da discriminação não se limita ao plano teórico ou educacional, ela é sentida na pele ao ocupar os espaços públicos da própria cidade.
Dácia relatou com crudeza e coragem episódios presenciados inclusive no trajeto para a celebração.
”Chegar numa praça dessa paramentado com as nossas vestimentas de ritual não é fácil. A sociedade olha, vira a cara, faz a piada grosseira, usa os xingamentos, discrimina, cospe. A gente passou por isso vindo para cá também”, disse
Apesar da violência velada e explícita do cotidiano, o tom final da professora resgatou a imponência de um legado que atravessa séculos e que não se curvará à intolerância.
”Mas segue de cabeça erguida. O Terecô tem 350 anos e vamos continuar existindo”, concluiu nossa entrevista em 24/07/2026

