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sábado, 25 de julho de 2026
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A RESISTÊNCIA DE CABEÇA ERGUIDA: Professora Dácia Abreu fala sobre discriminação no primeiro DIA DO TERECÔ DE CODÓ

Professora Dácia Abreu

A promulgação do Dia Municipal do Terecô em Codó trouxe à tona uma celebração histórica, mas também reacendeu o debate urgente sobre a intolerância que ainda sufoca a cultura e a fé de matriz africana na região.

Durante a cobertura do evento, conversei com a historiadora e professora codoense Dácia Abreu, uma das vozes mais lúcidas e contundentes sobre as dinâmicas raciais e socioculturais do nosso município.

​Ao ser questionada se a discriminação contra a Umbanda e o Terecô ainda persiste na cidade, a resposta da educadora foi firme, sem rodeios e desprovida de qualquer eufemismo.

​”É sim, né? A gente também ocupa o espaço de professor em sala de aula na questão do 6º ao 9º ano, que é a educação pública municipal, e constantemente a gente vê o Terecô ser tratado como um folclore local, não como um elemento que é fundante para nossa identidade de afrocodóense, de codoenses como um todo”, frisou

Dácia Abreu fundamenta sua análise na profunda conexão histórica que estrutura a sociedade codoense, lembrando que a negação da ancestralidade não apaga a sua presença na formação do povo.

​”Por mais que você não seja um codóense negro, quilombola, de terreiro, você ainda bebe da ancestralidade desse saber que vem desses antepassados que foram escravizados e que fundam o Terecô, juntamente, claro, com os povos originários, com os povos indígenas”, disse-me.

DO MARCO LEGAL às PRÁTICAS EFETIVAS

​Indagada sobre os caminhos e alternativas para diminuir essa hostilidade até que ela seja erradicada, a historiadora pontuou a distância que ainda existe entre a legislação vigente e a sua aplicação prática e contínua nas salas de aula.

​”Olha, a gente tem compromisso firmado pelo próprio Brasil há mais de vinte anos com a Lei 10.639/2003. A cidade de Codó tem estruturado um mecanismo legal para efetivar isso, mas não está a contento o modo como o passo a passo vem sendo feito, a questão do tempo, a demora. Algumas experiências de educação de combate ao racismo existem na cidade. Elas são representadas através de vídeos, atividades escolares, projetos. Falta é estruturar e sistematizar, fazer disso uma política pública, não atuações e eventos, ações de pessoas pontuais”, criticou

PARA ALÉM DO TERECÔ

O texto da lei municipal que institui a data, 10 de julho, prevê ações integradas como seminários, oficinas e visitas escolares ao longo de toda uma semana.

Embora tais atividades ainda não tenham sido plenamente executadas neste primeiro ano, a historiadora reforçou que o sentido do marco legal depende diretamente dessas ações formadoras.

​”Pensar como é que a gente vai fazer essa data comemorativa… A gente esperava um feriado, um ponto facultativo, ganhamos apenas uma data comemorativa. Como é que essa data comemorativa vai ter significado e importância, tanto para agora, mas para as gerações futuras? É justamente fazer esse dever de casa de letrar racialmente a sociedade codoense, para que a gente possa superar a discriminação do dia a dia”, concluiu Dácia Abreu

​A DOR DO PRECONCEITO e a Força Tricentenária

​A vivência da discriminação não se limita ao plano teórico ou educacional, ela é sentida na pele ao ocupar os espaços públicos da própria cidade.

Dácia relatou com crudeza e coragem episódios presenciados inclusive no trajeto para a celebração.

​”Chegar numa praça dessa paramentado com as nossas vestimentas de ritual não é fácil. A sociedade olha, vira a cara, faz a piada grosseira, usa os xingamentos, discrimina, cospe. A gente passou por isso vindo para cá também”, disse

Apesar da violência velada e explícita do cotidiano, o tom final da professora resgatou a imponência de um legado que atravessa séculos e que não se curvará à intolerância.

​”Mas segue de cabeça erguida. O Terecô tem 350 anos e vamos continuar existindo”, concluiu nossa entrevista em 24/07/2026

Acélio Trindade

Acélio Trindade

Autor no Blog do Acélio.

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