
Mais uma vez, estamos diante de um velho e requentado dilema político: a perspectiva de retorno da monstruosa ditadura sob o mantra propugnado pelo movimento conservador nacional misturando calorosamente a tese da ‘democracia’, da ‘liberdade’, da ‘família tradicional’ e do ‘patriotismo’ exacerbado como eixos centrais de uma sociedade a ser reabilitada[1] (grifo meu).
Há cerca de 62 anos atrás, o Brasil sofreu um debacle político que resultou na implantação de um regime de exceção feroz: a ditadura civil-militar. Esse regime constituiu-se num terrível momento de atraso para o povo, que perdurou duas décadas (1964-1985). Portanto, jamais queremos o retorno desse monstro daninho ao convívio.
Contudo, a falange liderada pelo presidiário Jair Bolsonaro, reivindica sistematicamente a necessidade de seu retorno para restabelecer a ordem social vigente – que, do ponto de vista deste segmento político conservador o país vive uma profunda crise institucional devido à má gestão da governança progressista (diga-se, de passagem, sob a coordenação do campo socialdemocrata petista).
Sob esse espectro, precisamos esclarecer um ponto determinante: já vivemos e estamos mergulhados sob a vigorosa democracia, usufruindo da liberdade plena, respeitando e preservando a família tradicional, sobretudo, com um elevado sentimento patriótico inequívoco, desde a redemocratização ocorrida em 1985; com a vertiginosa Constituição ‘Cidadã’ promulgada em 1988. Portanto, gozamos o auge daquilo que lutamos no passado, para, no presente, enlaçar e moldar uma sociedade desenvolvida, próspera e civilizada com esses parâmetros institucionalizados.
E qual é o ponto de convergência que o conservadorismo nacional autocrático se mostra como uma alternativa para reestruturar o país? – isto é, segundo sua tese de que o Brasil está totalmente destruído?
Podemos perceber essa movimentação, a partir do discurso pronunciado pelo ex-deputado do baixo clero e ex-presidente, sentenciado por tentativa de golpe de estado, agora, um prisioneiro domiciliar, Jair Messias Bolsonaro, no fatídico processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff; ele elenca a plataforma de um projeto de poder para conquistar a sociedade brasileira. Sua vertente discursiva – o teor – imprime os caracteres/alicerces para a sua objetiva estratégica finalidade: construir uma identidade para atacar um inimigo comum tática e ideologicamente, a posteriori, se tornaria princípios doutrinários, se transformando em palavras de ordem: “Deus, pátria e família”. E assim, no plenário da Câmara Federal ele produziu a seguinte fala:
Neste dia de glória ao povo brasileiro, tem um nome que entrará para a história nesta data, pela forma como conduziu os trabalhos desta Casa, parabéns Eduardo Cunha. Perderam em 64, perderam agora, em 2016. Pela família e pela inocência das crianças em salas de aula que o PT nunca teve; contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra o Foro de São Paulo, pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor da Dilma Rousseff, pela presença de Caxias, pelas Forças Armadas, por um Brasil acima de tudo e Deus acima de todos, o meu voto é sim.
O bolsonarismo é a maior excrescência da recente história republicana brasileira. Nele estar depositado o que há de pior no conceito político de transformação estrutural, liberdade, direitos humanos, igualdade, desrespeito à identidade e repúdio contumaz à solidariedade social. É um movimento esquálido, enfermo e irresistivelmente autoritário.
Ora, não existe maior e melhor experiência numa determinada sociedade do que a esplendorosa democracia como modelo ideal de relações entre os entes sociais com a garantia absoluta de suas liberdades e seus direitos e deveres consolidados.
A experiência ditatorial deixou sua marca e legado tão profundamente arraigada que, até o presente momento, temos figuras públicas emblemáticas, abomináveis e abjetas que evocam seu retorno, com espírito travestido de republicanismo. Não há nada de republicano, quando o ponto central do debate pressupõe a “Intervenção Militar” para contornar a crise política brasileira – mas, sob as atuais circunstâncias, nosso país não experimenta uma intensa crise institucional, ao contrário, os indicadores apontam que estamos numa de nossas melhores fases de aprofundamento da democracia e das liberdades individuais e coletivas, além de uma excepcional capacidade propositiva de nosso país em estabelecer contratos bilaterais – o que chamamos de multiculturalismo/multilateralismo geopolítico favorecendo o equilíbrio da balança comercial, estabelecendo a influência Brasileira externamente.
A pretendida concepção de sociedade a ser reabilitada pelo movimento conservador nacional autocrático que, a priori, aparenta ser ‘inofensivo’, ‘patriótico’ e ‘inovador’ revela-se um autêntico e genuíno movimento reacionário com uma tática sórdida e apolítica – vide a postura do embusteiro governador do estado de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) que, se autodefine como um homem apolítico. Uma tese contraditória, pois, ao se tornar um militante político e com uma filiação partidária, automaticamente já se constitui em um homem político, afinal, todo homem por natureza é um ser social e como tal, um ser político, um ativista.
Para além disso, o princípio constitucional da soberania brasileira está em jogo por conta desse movimento conservador nacional autocrático – que, em larga atividade pelo clâ Bolsonaro ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, decidiu se autointitular ‘perseguido’ pela ‘ditadura comunista petista e da toga’; e se fixar nos EUA e, então, passa a arquitetar um ardil contra o Brasil. Nitidamente, percebe-se o ato com característica de traição e antipatriotismo. E para consolidar essa arquitetura política antipatriota, literalmente ele afirma: “[…] se houver terra arrasada, estarei vingado […]”. Citarei outra fala dessa tese intempestiva, aferida pelo então ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, quando afirmou: “[…] para fechar o STF basta mandar um cabo e um soldado […]” uma tese inequívoca que enebria os sentimentos ideológicos mais calorosos das correntes políticas retrógradas de nossa conturbada ‘Pátria amada’.
Ai, está o fundamento ideopolítico de toda a estratégia que seria paulatinamente sendo implementada com doses homeopáticas ao conjunto da sociedade civil brasileira. E, assim, o movimento conservador nacional adquiri uma personalidade renovada do ponto de vista da mudança social; porém, o agravante: a lógica desse fundamento é inverter a lógica social para a lógica individual estabelecendo a competitividade – formulando a concepção meritocrática entre incompetência X competência; ineficiência X eficiência – como eixo gravitacional da engrenagem de poder. Em resumo, toda a cantilena teórico-ideológica exposta pela extrema direita, tem como pano de fundo, a tentativa de substituir a atual forma social sustentada na democracia para outra irretocavelmente bárbara, violenta e autoritária.
O ponto determinante dessa contradição teórico-ideológica – a propagação da “democracia” e da “liberdade” e do “patriotismo” cai por terra, estabelecendo uma perspectiva brutal ao país tentando sufocá-lo, criando circunstâncias e barreiras profundamente negativas entre nações em termos de políticas comerciais. Para comprovar essa tese, basta verificar a sistêmica agressão do governo norte-americano ao Brasil, por meio da imposição das tarifas absurdas.
O movimento conservador – também, classificado como extrema direita por especialistas, com características fundantes no fascismo e nazismo – consegue ampliar sua confluência através das mídias sociais.
Com uma tática simbólica de acusar o inimigo comum daquilo que o são na prática (grifo meu) e, objetivamente, a partir dessa tática canhestra, construir uma ideia a ser perseguida: aniquilar e desfigurar a reputação de tal inimigo sob qualquer custo. O inimigo escolhido é o PT e, por conseguinte, precisa ser imediatamente destruído para que a sociedade finalmente possa viver plenamente sob a luz da justiça, da intocável democracia, da liberdade plena, da tradição; velando incontornavelmente o valoroso sentimento patriótico, preservando valores morais, sobremaneira, resguardando a identidade familiar como base fundante de uma verdadeira estrutura para engendrar uma sociedade conjugada por valores inatacáveis estabelecendo uma precípua harmonia.
Os discursos propugnados por seus encarniçados membros políticos conservadores demonstram na prática, essa peculiar característica em defender a ditadura como elo fundamental de uma nova sociedade. Só a título de informação: a aprovação da Previdência Social, a terceirização, e, mais recentemente, a articulação das forças retrógradas em barrar e/ou protelar a aprovação no Senado a proposta da escala 6 X 1; além de levantar e defender a tese da reforma do serviço público, como elemento chave para retomar o equilíbrio das contas públicas privilegiando o arcabouço fiscal. Portanto, o bolsonarismo é a antítese da democracia e da liberdade.
[1] O termo aplicado tem como pano de fundo, esclarecer que a atual realidade material histórica nacional não está sob ‘escombros’, ‘destruída’ e capitaneada por organismos do aparelho de estado, p.e., o STF para justificar a tese conservadora da “ditadura da toga” e/ou “ditadura comunista petista”. Ao contrário do que pressupõe o ardil movimento conservador autocrático nacional, os índices internos socioeconômicos demonstram uma rota de direção completamente inversos do que fora o resultado do governo ultraliberal regido por Jair Bolsonaro (2019-2022).

