Em meados de dezembro de 2014, estive dialogando com um correligionário politico das antigas: Jandir Freitas. Nossa fala girou em torno da conjuntura nacional (obviamente, sobre a crise que assolapa a Petrobrás, a corrupção envolvendo políticos e a presença das desgraçadas empreiteiras no processo político – a privatização das eleições). Evidentemente, que não farei uma observação de todos os pontos que discutimos naquela oportunidade, mas, focar apenas numa questão que considero interessante lançada por ele: a questão da existência de partido político e seu projeto e o homem enquanto protagonista da história – isto, sob o mérito teórico e não prático de nossa saudável discussão.

Professor Jacinto Junior
Professor Jacinto Junior – um moderno pensador

Não desejo entrar no aspecto histórico da fundação e finalidade dos partidos como instrumentos legitimados para garantir o direito de qualquer cidadão(ã) filiar-se e disputar eleições em todos os níveis, tendo, claro, obedecidos aos tramites impostos pela Carta Magna e a Legislação Eleitoral em vigor.

O que me chamou atenção na fala de Jandir Freitas foi seu ceticismo em relação aos partidos – pois, em seu entendimento os partidos políticos são os responsáveis diretos pela prática criminosa da incontornável corrupção que prolifera em nossas instituições democráticas. Segundo ele, ainda, é preferível acreditar nos homens que em partidos. Evidentemente, que não concordei e não concordo com esse posicionamento. Vejamos, então, o que de fato, devemos observar como instrumental indispensável para o combate aos corruptos e corruptores.

Primeiro, temos que inverter a lógica do pensamento: é a partir da organização da base que se conflui as ideias primarias de uma concepção partidária a serem defendidas por determinadas categorias e, nesse processo, estão presentes os homens com suas motivações. Portanto, o partido é um elemento chave para propiciar as articulações e os homens são uma espécie de correia de transmissão de princípios e ideias contidas em seu manual. Não concebo uma sociedade desenvolvida e democrática sem a presença de partidos fortes e programáticos. O dirigente político tem que aplicar os ideais (programa) do partido e não ao contrário, adotar uma política circunstancial para executar sem nenhum critério racional, a bel-prazer. A coisa não funciona dessa forma destrambelhada.

Segundo, a preocupação demonstrada com a palpitante ‘crença’ em homens, como pontes para o exercício do poder e, consequentemente, a possibilidade de se idealizar um governo minimamente democrático, é uma questão absolutamente subjetivista, pois, o homem é extremamente maleável em sua relação política; em se tratando de homens inescrupulosos e sem ideologia; a situação toma formas desproporcionais.

O principio fundamental que norteia a existência do partido político é seu programa e o homem deve ser o executor-mor. Enxergamos, portanto, o germe da temperança nesse processo político complexo.

Em síntese, reafirmo que, para proporcionar uma relação política democrática e um caráter progressista na configuração de um modelo de governo é fundamental a presença de um partido político engajado como indutor de um projeto absolutamente inovador e o homem sendo seu aliado insubstituível. Não é possível construir um governo acreditando apenas no homem, se este homem, simboliza apenas um discurso aforístico. Exemplo: Fernando Collor de Melo, que fora eleito sem um partido e sem um programa. E o resultado sabemos o que aconteceu!

A luta social e a organização de base tem como fim a criação de um partido com uma ideologia que atenda aos interesses coletivos, portanto, o partido político constitui o elo primordial para estabelecer uma intensa luta entre os diversos interesses que permeia a vida tanto dos trabalhadores quanto da burguesia liberal-conservadora.

Particularmente, acredito em partido político como meio para se chegar ao poder e instaurar uma nova ordem. O homem tem que ser ideológico para caminhar na estrada com firmeza, sem vacilar. O partido político é a trincheira inseparável do homem que acredita em seu projeto democrático e coletivo. Entretanto, é fundamental estabelecer distinções entre os diversos partidos, pois, há, inevitavelmente, partidos de direita, extrema direita, centro, esquerda, esquerda radical, cada um com uma concepção ideal de sociedade. Por exemplo, em nossa cidade, temos todas as cores partidárias citadas acima. Cabe ao eleitor analisar criteriosamente os políticos que estão filiados em cada um desses partidos. O nível de desenvolvimento e democracia de uma dada cidade é consequência da escolha direta dos cidadãos(ãs) ao optarem por um candidato que não seja honrado, honesto e ético. Será que devo acreditar somente no homem e descartar o partido político como elemento intrínseco de um modelo democrático de sociedade? O homem é por si só, capaz de superar todos os dilemas sociais como um ser infalível? O homem é peremptório, o partido é permanente, é eterno, como eterno são suas proposições teórico-ideológicas lançadas por seus membros.

Penso que, a inexistência do partido como instituição legalizada geraria uma confusão horrenda ao sistema democrático e republicano. Não há possibilidade de uma sociedade fluir seu desenvolvimento integral numa perspectiva conflituosa se não a partir do dissenso ideológico originado pelas legendas partidárias e os homens sendo os interpeladores desse projeto contraditório. Com isso, reafirmo que, a presença do partido político na sombra da política impõe, inevitavelmente, a discussão fundamental de um modelo de sociedade conexo a uma proposta apresentada por um partido político. O partido político simboliza a vanguarda de uma utopia a ser construída progressivamente por homens dedicados e comprometidos com sua ideologia programática.

Sou adepto do partidarismo como instrumento essencial para irromper uma forma canhestra de sociedade subjugada e conservadora. Acredito sempre na perspectiva coletiva de uma sociedade profundamente democrática, desenvolvida e libertária. As linhas gerais desse processo partem exatamente das condições sociais efetivas dos indivíduos submetidos a uma realidade alienada-alienante oxigenando os poros sociais impressos pela concepção dos partidos de vanguarda. Não há experimentos. Mas, sim, condições sociais concretas a serem reestruturadas sob o prisma partidário vanguardista. O homem é por essência uma fraude, um protótipo de egoísmo individual. Não é de confiança, sempre demonstra fragilidade e, sobremaneira, enterra a si mesmo no cotidiano da história, sua história singular. Tempos depois reconhece o erro quando já é tarde uma reconciliação com a sociedade e, mais ainda, com própria história (exemplo disso são os políticos que cometeram e continuam a cometer abusos e crimes de responsabilidade fiscal e são condenados judicialmente). O homem ao apegar-se aos princípios partidários não constitui nenhum problema para-si, na verdade, o problema surge quando há o completo abandono aos princípios partidários disseminados e incorporados em-si.

O partido político é a linha tênue para engendrar uma revolução, uma contrarrevolução, uma sociedade democrática, uma sociedade conservadora ou, então, uma sociedade liberal tremendamente injusta. O partido político é o bastião da segurança conforme a visão do programa executado. Enfim, o partido político é a própria política.

Por Jacinto Junior

5 Responses

  1. Pensar um partido como algo reificado, uma instância dada, com vida própria e pronto para direcionar a vida dos seus membros parece algo irreal. Partidos, como muitas outras instituições sociais, são instâncias dinâmicas que mudam (todo partido é um partido do seu tempo) o que não quer dizer que não possam ter identidade.

    Pensar um partido como fenômeno acabada pode e faz com que muitos deixem de crer. Crer na mudança, na ação coletiva, na construção de caminhos viáveis.

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