Uma inteligência incapaz de perceber o contexto e o complexo planetário fica cega, inconsciente e irresponsável (MORIN).

Antes de qualquer objeção desejo explicitar o título deste texto. É uma alusão à obra do filosofo, antropólogo e sociólogo francês Morin – trata-se da obra “A Cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento” (grifo nosso), publicada em 1999, pela Editora Bertrand Russel. Só a primeira parte do título da obra referida que aproveitei para poder expor minhas impressões sobre o que pensa a figura lacônica de Ana Lúcia. Não farei nenhum posicionamento a respeito da obra de Morin, mas apenas salientar o sombrio argumento da citada autora do áudio publicado nas redes sociais.

Professor Jacinto Junior – um pensador contemporâneo

Não pude conter-me diante da argumentação proferida pela autora – inclusive, não tenho nenhuma intimidade e nem a conheço pessoalmente -, proprietária da Loja Fábrica de Delícias, no que concerne a uma crítica construtiva de um internauta em sua pagina oficial (Facebook). Trata-se de um jovem que ficou incomodado – e não acomodado, segundo a visão da autora, no que tange ao clima existente no interior de um espaço importante para a sociedade civil de um modo geral e, em particular, ao educando por tratar-se de uma significativa fonte de pesquisa: a Biblioteca Pública.

Creio que, ao postar sua impressão sobre a temperatura do ambiente, certamente, o internauta receberia algum tipo de comentário pró e contra. Contudo, o fato em si, denuncia o descaso da gestão pública para com o Bem Público. Na realidade, o espaço precisa sim de uma ampla reforma, especialmente, no que é fundamental: a renovação dos títulos – a ampla maioria das obras disponibilizadas para o público, ainda são das décadas de 1980, 1990, 2000 e, oxalá, 1970, o que a torna obsoleta enquanto instrumento de informação atualizada quem a procura.

Para, além disso, voltemo-nos ao que interessa: avaliar o conteúdo do áudio postado.

Na fala deselegante é possível entender sua pertinência em relação ao governo ‘mais avanço, mais conquistas’ quanto o defende desmedidamente. É um fascínio inexprimível!

Ela compreende o governo como sendo incapaz de cometer algum tipo de erro político, de ser injusto para com o povo, sobretudo, naquilo que é de sua restrita competência institucional. Por exemplo, cuidar e preservar o Bem Público – no caso em foco, a Biblioteca Pública Municipal. Entretanto, para ela, o governo ‘mais avanço, mais conquistas’, tem desempenhado um papel bastante expressivo e com eficiência ante a dura realidade social que perpassa nossa municipalidade.

Além de pontuar aspectos formais como: ter caminhado ‘a pé’ para a escola, justificando a ausência de ‘merenda escolar’; pois, em seu entendimento, isto não é motivo para reclamação por ser estudante de escola pública; inclina-se a justificar o não fornecimento de transporte escolar a quem dele necessita, por fim, refere-se a um período áureo enquanto educanda era capaz de ler com desenvoltura, escrever com extrema habilidade, e gaba-se, ainda, de sua capacidade em dialogar de forma articulada o ‘português’  culto, o coloquial é mero detalhe! Tudo isso, para rebater um comentário de um jovem em sua pagina oficial do facebook.

Quão perfeita fora sua geração! Sem traumas, sem nenhum problema de ordem social e/ou familiar – isto é visível, quando a mesma testifica de si o valor ao estudo, apesar de todas as adversidades e intempéries, ali estavas a superar tudo! Isto é magnifico e admirável.

Em que consiste seu equivoco, quando propõe a defesa do governo ‘mais avanço, mais conquistas’?  

Quando tenta rebaixar e desqualificar não apenas o jovem internauta, mas sim, a juventude de um modo geral, que ‘não querem fazer sacrifício nenhum’, na labuta por sua vida em uma sociedade onde predomina a preguiça, a indolência e o desrespeito; ela acrescenta que, para o cidadão (o jovem) não é “sacrifício nenhum ler no calor…”  tal assertiva denota uma profunda frieza sem aparente justificativa sobre as condições e as acomodações de um espaço tão importante quanto é a biblioteca pública para quem dela deseja usufruir. Logicamente que a juventude constitui o principal ator desse protagonismo e, neste aspecto, não satisfeita ainda com suas asneiras, comete fina torpeza dizendo: “se fosse o Francisco eu botava era uma fogueira para ficar mais quente ainda pra ver esse povo…”  celebrando assim, sua notória empatia para com o governo ‘mais avanço, mais conquistas’, e seu completo desprezo para com o povo e a juventude codoense.  Quando ouvi sua firme voz entoando a necessidade de se fazer uma “fogueira”, imediatamente, mergulhei nos anais da história e me retive no século XIII, em que a Igreja Católica Apostólica Romana concentrava todo poder político e religioso, quando instituiu o mais perverso processo que já se conhecera na humanidade para combater quem a desafiasse: o Tribunal do Santo Ofício (1233) – a Inquisição. Figuras como Giordano Bruno (1548-1600), Gerônimo de Praga (1360-1416), Joana d’Arc (1412-1438), Galileu Galilei (1564-1642), e vários outros pensadores sofreram perseguições e foram acusados de heresias e bruxarias – uns foram mortos, outros, se retrataram. Quando relembro desse episódio tétrico, sinto um profundo repúdio e indignação. Em 2000, o Papa João Paulo II reconheceu esses erros bizarros e pedira perdão à humanidade.

Contudo, em pleno século 21, no ano de 2018, ouvimos uma voz ecoar numa alusão à ‘fogueira’ como instrumento torturador necessário à cidadania. Portanto, ao estabelecer esse paralelo, o faço para desentranhar a sutileza da autora em objetar o silêncio como elemento natural no contexto social – i. é, que ninguém ouse criticar o governo talhado pela moral intuitiva -, e a crítica como instrumento dispensável para garantir a ordem vigente. Ainda é possível interpretar nas entrelinhas, uma insinuação de que o jovem ‘estava lá aproveitando a internet para a rede social’  (grifo nosso). Segue, abaixo, a degravação e a transcrição, do áudio, conforme a autora:

Hoje, o pessoal está com muito comodismo, na minha época, a gente ia a pé para a escola, não tinha merenda, a biblioteca não tinha ventilador, não tinha carro pra ir a escola, ninguém faltava, as notas eram muito maiores do aproveitamento, falávamos muito melhor o português, escrevíamos melhor ainda, líamos muito mais, éramos muito mais cultos. Hoje em dia, os jovens não querem fazer sacrifício nenhum, pois, eu te digo mais: não é sacrifício nenhum ler no calor… pois, se eu fosse o Francisco eu botava era uma fogueira para ficar mais quente ainda pra ver esse povo… rapaz eu vou te contar, eu fico revoltada Leo com esse tipo de coisa. No mínimo estava lá aproveitando a internet para a rede social (Grifo nosso).

Antes de prosseguir com meu raciocínio, apresento, também, depois de feita degravação do teor do áudio, a opinião de outra internauta sobre o raciocínio inadequado da autora em questão, e, assim, ela se posicionou:

Essa infeliz esquece que no meu tempo e já no tempo dela, já tinha merenda escolar. Era dada diretamente pelo MEC/FAE. Era carne de jabá. Eu tenho certeza que ela também comeu carne de jabá, sardinha, leite pau-de-índio; uma porção de coisas. Realmente, não tinha carro pra gente ir pra escola, mas, hoje, o governo dispõe disso, e, se dispõe, é pra ser trabalhada, é pra ser utilizada, não é pra ser guardado não, é do aluno. É o programa da Alimentação Escolar, do aluno; é Programa do Transporte Escolar do aluno. Todos os Programas do MEC é voltado para o aluno, para o processo ensino-aprendizagem. Não é pra gente simplesmente ficar dizendo que é pra fazer fogueira e botar aluno dentro não que ninguém tá no inferno não! (Grifo nosso).

Ao rebater o argumento da autora do áudio, a internauta expõe com esmerada clareza a realidade presente que se manifesta. Apresenta-lhe, em seguida, dois Programas do governo federal para atender ao educando(a) de classe popular, a saber: PNAE – Programa Nacional de Alimentação Escolar; Programa do Transporte Escolar.

Permita-me a internauta fazer apenas um acréscimo sobre este último Programa citado por vós. Na verdade, este programa – PNATE – existe para repassar recursos financeiros para o município fazer a manutenção dos ônibus escolares. Ele é chamado de Programa Nacional de Apoio ao Transporte do Escolar. O Programa que fornece o Transporte Escolar é chamado de Caminho da Escola. Só para esclarecer a diferença entre um e o outro. E para reforçar o contraponto da internauta sobre o conjunto de Programas Sociais do governo federal disponibilizado para a educação básica, elencarei todos eles: Caminho da Escola; PNAE – Programa Nacional de Alimentação Escolar; PDDE – Programa Dinheiro Direto na Escola; Proinfância; Brasil Carinhoso; Formação pela Escola; PAR – Programa de Ações e Articulação; Proinfo; Programa do Livro; PNATE – Programa Nacional de Apoio ao Transporte do Escolar; e PBLE – Programa Banda Larga na Escola.

TEXTO E CONTEXTO: QUEM É QUEM NA PUBLICAÇÃO DO ÁUDIO?

E, antes de fechar o presente, verifiquei outro texto enviado pela autora ao blog do Mãozinha, onde, mais uma vez, tenta justificar o seu argumento inapropriado.

E quando lemos o conteúdo do texto para explicitar o contexto é visível a presença de dois personagens que participaram do diálogo ‘culto’. No primeiro momento ela diz: ‘errei ao falar com uma pessoa que achei que eu confiava, errei feio’. E, mais abaixo, reforça a ideia de que essa pessoa ‘que se dizia amiga’ […] ‘não colocou as outras conversas’. E para fechar sua retórica emendou: ‘Quanto a quem soltou o áudio espero que ele se entenda com Deus…’ obviamente, aqui,  a autora se refere a um homem pois, conjuga o tempo na terceira pessoa do singular (talvez esteja referindo-se ao proprietário do blog que veiculou o áudio) e não à ‘pessoa que se dizia amiga’. Segundo a autora, essa ‘amiga’ fez uma reedição de sua fala – ou seja, sua ‘amiga’ separou somente o texto que lhe interessava do contexto e o resto descartou. E o resultado foi aquele disparate!

Veja a íntegra do texto:

Sabe Osvaldo eu errei ao falar com uma pessoa que achei que eu confiava, errei feio.
A pessoa tirou uma fala do contexto de um comentário sobre a biblioteca não ter ar.
E todos vcs me.julgaram sem.me.peeguntar o contexto da conversa…
Meu amigo espero sinceramente que vc nunca não seja julgado assim… Sem direito de defesa.
Tenho consciência di que fiz e disse, repito fora do contexto.
Mas muito obrigada.
Humildemente peço perdão a você e todos…
Fiz o comparativo do.meu tempo com que é hoje,
Mas a pessoa que dizia se amiga, não colocou as outras conversas… Passei então a conhecer um pouco do caráter dos envolvidos…
Agradeço de coração.
Quanto a quem soltou o áudio espero que ele se entenda com Deus…..
No dia que você ou alguém próximo a você precisar de ajuda, vou estar aqui a disposição para ajudar como faço com vários familias e criança crentes em Codó
(grifo nosso).

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Por fim, e, plenamente cônscio de minha responsabilidade enquanto cidadão defendo a opinião do internauta que fez a cobrança ao gestor municipal para melhorar o atendimento ao público, e, um dos itens, é a climatização do ambiente – ou melhor, sua reparação/manutenção.

Somente uma pessoa de “cabeça bem-feita”, emocionalmente estruturada e intelectualmente madura – semelhante à micro empresária -, sugeriria como resolução para o problema levantado pelo jovem internauta uma ‘fogueira’ para tranquilizar o cérebro de quem deseja proximidade com o conhecimento científico, através daquele espaço fundamental.

Uma cabeça bem-feita – literalmente concebida na perspectiva dialética e equilibrada – nunca negaria um direito social de qualquer sujeito histórico; porém, a “cabeça bem-feita” – aquela originada na alienação e no retrocesso -, ao contrário, imporia a injustiça e a negação com o intuito de ver a figura humana sofrer sem necessidade. Coisa tipicamente de pessoas que entende a relação social na base da Casa-Grande e a Senzala. Isto é pura petulância.

O verdadeiro sentido que se daria a uma cabeça bem-feita era corroborar com o desenvolvimento pleno da cidadania solidarizando-se ao jovem e fortalecendo o pedido. Assim, a “cabeça bem-feita” – alienada – seria, de fato, uma cabeça bem-feita – dialética – buscando amenizar os conflitos, respaldando não apenas o jovem, mas, sobretudo, a gestão ‘mais avanço, mais conquistas’.  

Por Jacinto Junior  

8 Responses

  1. O Mundo e em particular o município de Codó e mais particular ainda aqueles que de alguma forma convivem, seja por qual motivo for, no restrito espaço da administração publica municipal se acham no direito pra ganhar cartaz com o gestor público de gravar conversas, ouvir e levar adiante fuxicos que o agradem, distorcer e, ainda, como parece ter sido a fala da empresária em questão, se acham no direito de ser conivente, de concordar com o discurso e as atitudes daquele que REPRESENTA E DEVE ZELAR POR TODA A POPULAÇÃO CODOENSE, e não só por 8% desta, somente para ganhar cartaz e as benesses proporcionadas aqueles que Ele julga estar do lado Dele.
    Eu só me pergunto: Qual o nível de quem nos representa? Que se dispõe a ouvir e absorver as m… que puxa sacos de plantão se dispõe a fazer.
    Só lembrando: O seu puxa saco de hoje, pode ter certeza, será o seu algoz amanha.

  2. Minha senhora vem recurso para o município para todas essas melhorias na educação. O que você passou, que no seu ponto de vista não foi motivo pra recalques, ótimo, só que hoje mudou, e o gestor presta conta disso. Quando for defender seu protetor pense bem.
    Se você só quis fazer comparação, acredito que era pra concordar com a mudanças ou naquela época você não gostaria de ter merenda de qualidade, um local tranquilo e refrigerado para estudar, como o seu gestor tem pra estudar e trabalhar,transporte escolar, e que fosse bem conservado, material didático, internet, tá vendo mudou e esse direito é de todos.

  3. Depois de ter sido um fracasso como militante do PT, depois de ter sido um fracasso como militante do Dr. Antonio Joaquim, isso mesmo, o Jacinto pediu para sair do PT, na década de 90, para fazer política com Dr. Antonio depois de uma reza forte.Depois de ter sido um fracasso como secretário de educação, Jacinto, se lança como crítico da política de Codó. Essa sua cabeça, Jacinto, nunca se fez com precisão.

  4. Não vi no artigo ofensa a administração pública, apenas comentou e fez um paralelo entre o antes e depois segundo o comentário da empresária e o internauta, não confundam, além de puxa sacos alienados.

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