
ZÉ DOCA (MA) — Quem trafega pela BR-135, na altura do município de Zé Doca, avista de longe a imagem de um conjunto habitacional imponente.
São cerca de 2.500 moradias que deveriam representar a realização do sonho da casa própria e a garantia de cidadania para centenas de famílias de baixa renda.
No entanto, há 12 anos, a realidade do local é retratada pelo abandono, pela burocracia e pelo desespero de beneficiários que assistem ao deteriorar de suas futuras residências sem jamais terem recebido as chaves.
A história do residencial é marcada por um ciclo interminável de invasões, reformas e depredações.
Em julho de 2016, a gravidade da situação exigiu uma operação da Polícia Federal para a retirada de invasores que ocupavam o espaço.
Embora hoje não existam mais famílias morando irregularmente no local, o imóvel continua vulnerável.
Os próprios beneficiários denunciam que saques, furtos e vandalismos são rotineiros.
INCÊNDIO
A vulnerabilidade do terreno ficou ainda mais evidente em 2023, quando um incêndio que começou na vegetação baixa se alastrou e atingiu diversas residências. Na ocasião, a Caixa Econômica Federal limitou-se a informar que a estrutura física dos imóveis não havia sido comprometida.
Por trás dos edifícios de alvenaria e das desculpas institucionais, o impacto humano é devastador.
Mães de família vivem no limite da exaustão emocional diante da espera que já dura mais de uma década. Uma das moradoras cadastradas no programa desabafou sobre a angústia de ter o direito à moradia negado diariamente.
”Aí chega numa situação que a gente já quer a casa, porque eu tenho três filhos e um deles é especial. Aí eles vêm dando só promessa, promessa e nada de sair as casas”, disse na reportagem de Erisvaldo Santos, apresentada no JM2 desta quinta-feira, 30/07.
Para os idosos da região, o atraso nas obras traduz-se em privação de itens básicos de sobrevivência, como alimentação e remédios.
É o caso de dona Francisca Rodrigues , que compromete quase a totalidade da sua renda de aposentada para manter um teto sobre a cabeça enquanto espera a entrega do imóvel prometido:
”Recebo 600, aí 500 de aluguel e uns 100 é por remédio, por calçado, para tudo”, disse dona Francisca
A indignação da comunidade aumenta à medida que o empreendimento aparenta estar na fase final. No entanto, o discurso das autoridades responsáveis não se altera ao longo dos anos, gerando revolta em quem precisa do imóvel para viver com dignidade.
”Eles dizem ‘não, estamos só ajeitando pequenas coisas que foi roubada, que foi saqueada’ e eles nunca entregam, sempre é a mesma desculpa. Um absurdo, né? Ver as casas prontas, aí praticamente finalizado o residencial e as pessoas precisando para morar e ter uma moradia digna”, frisou a moradora
Procurada pela TV Mirante formalmente para responder sobre o cronograma de finalização das obras, a falta de segurança no canteiro e a previsão de entrega das chaves às 2.500 famílias cadastradas, a Caixa Econômica Federal não enviou resposta até o fechamento desta reportagem.
Enquanto a resposta oficial não chega, o residencial às margens da rodovia permanece como um monumento ao descaso com o dinheiro público e às necessidades da população vulnerável

