Historicamente, temos ouvido muito uma frase que origina uma profunda expectativa na vida do sujeito, e ela é reproduzida em todos os segmentos e por distintas pessoas: “a educação é tudo”. Quero a partir dessa notação, expressar um ponto de vista questionando a influência que tal frase causa ao indivíduo, à família e à sociedade como um todo.
Interessante observar como esse elemento pode ser determinante para engendrar um novo homem com um espírito elevado e bom e/ou um sujeito desfocado da realidade e com características frontalmente opostas à finalidade proposta pela educação a bom termo.

Inicialmente, faço uma observação relacionada à minha própria pessoa enquanto individuo que se relaciona socialmente com diversas pessoas e diferentes opiniões e visões de mundo.
Quando ainda garoto em tenra idade, ouvia sempre meu pai (que não teve oportunidade de estudar, pois, residia num lugarejo inóspito, aonde não havia escola, e seu labor era o plantio de roça, mas, mesmo assim, com sacrifício conseguiu conquistar o direito à leitura, dedicou toda sua vida ao trabalho e à família; sempre estava lendo de tudo e aquilo me fascinava!) dizia que o ‘ambiente é que produz o homem’ e minha mãe (professora, com dupla jornada de trabalho; contudo, arranjava um tempo para nos orientar em nossas tarefas escolares) reafirmava sempre que o ‘hábito da leitura pode mudar o modo de vida de uma pessoa’.
Cresci ouvindo e lembrando esses valiosos conselhos. Na minha adolescência passei cada vez mais a ler historias de quadrinhos, Almanaques dos Heróis Marvel, Coleção Tex Willer, Zagor, Capitão América, Tarzan, Conan: O Bárbaro, Mickey Mouse, Pateta, Pato Donald, Tio Patinhas – o velho ranzinza -, Superman e etc. Logo em seguida, nosso pai nos trouxe uma Coleção encadernada capa azul cujo título era ‘Saber e Conhecer’. Era uma espécie de enciclopédia resumida contendo relatos de vários fatos históricos. Aquilo para mim foi uma coisa fascinante, pois, comecei a descobrir outras histórias verídicas sobre a história humana nos diversos campos dos saberes sociais. Por isso, hoje, tenho um grande débito, aliás, impagável, aos meus genitores que foram na verdade os meus primeiros professores.
Meu pai, o Sr. Jacinto Pereira Sousa, foi e é um homem de reputação inigualável. Honesto e sereno nunca se ocupou de algo que não fosse para produzir e produzir com responsabilidade e abundantemente. Homem de pouca intelectualidade (no sentido de formação acadêmica, não é formado), porém, de uma argúcia e sapiência que o faz notabilizar-se. Sobreviveu ao mundo com uma formidável compostura ante ao sistema da competitividade e da individualidade. Não se utilizou da manipulação para dobrar seus oponentes, ao contrário, o uso recorrente da verdade foi sua marca indelével e invejavelmente admirável por seus oponentes nas discussões e debates.
Essa postura tem tudo haver com sua apaixonada e intensa leitura que permeou todo seu caminho e vida. Soube como ninguém, aproveitar os ensinamentos contidos nessas leituras desbravadoras para aplicar concretamente em seu cotidiano de forma irretocável. Sempre soube combinar o recurso gramatical formal com elegância, sem erros nas construções frasais. Exímio rabiscador e, por conta disso, assumiu, por várias vezes, a função de Secretário-Geral no Poder Legislativo. Portanto, posso afirmar com segurança que ele foi e continua a ser o modelo ideal de homem a ser seguido, sem nenhum exagero pelo fato de ser meu genitor
Ao relatar esse fato o fiz com a intenção de mostrar que a leitura pode transformar o homem em sua complexa formação intelectual. Não foi necessário recorrer a expedientes ‘escusos’ para saber conviver socialmente e de maneira respeitosa com o outro e construir sua vida. A sua maior riqueza não é a material e, sim, a intelectual.
Outro modelo que me influenciou profundamente foi a simplicidade de minha genitora enquanto profissional da educação do Estado. Serviu a este município e, hoje, encontra-se aposentada depois de mais de trinta anos de penosa atividade laboral educacional. Exemplo belo de dedicação. Enquanto educadora foi marcada por sua forma decidida de enfrentar a realidade dura de ensinar com poucos recursos pedagógicos na época.
Lembro-me de um fato curioso: o professor Neto (ex-professor, atualmente, já aposentado, também) tinha de ser substituído por outro profissional na escola Complexo Escolar Renê Bayma, vários nomes foram sugeridos, porém, ninguém quis assumir a disciplina do professor, a Diretora (na época, D. Iracema) lançou o desafio para a professora Francisca Enir e, ela, automaticamente, aceitou a empresa e, deu conta do recado com muita mestria. Esse fato constituiu para mim numa incrível façanha por parte de minha genitora e, mais ainda, fortaleceu-me de tal modo essa experiência que acabei me integrando ao mundo da educação. Foi com ela que aprendi as primeiras letras e a paixão pelo ato de estudar. Com ela aprendi a ler as primeiras sílabas vendo-a lendo e ensinando outros alunos na escola Presbiteriana quando a mesma exerceu a função de gestora.
A ela devo tudo! Desde a tenra idade procurei respeitar o meu próximo, fui ensinado a fazer isso sob a condução rigorosa e orientação de meus pais. Aprendi também que o homem para conhecer a ciência, a história – dominar o conhecimento – em suas diversas ramificações, necessita criar o seu próprio método investigativo – estilo, hábito e formato de pesquisa -, sem perder de vista o mais importante elemento: a leitura histórica circunstanciada.
Mostrei que o processo ler/interpretar é essencial para formar um homem na perspectiva histórica de transformação. A partir da apropriação de uma leitura crítico-histórica dos eventos processados o individuo será capaz de revelar caminhos cristalinos para uma nova sociedade e um homem renovado intelectualmente.
A educação é tudo? Creio que é um meio pelo qual o homem pode superar as várias dimensões sociais e os variados obstáculos – que se interpõem na vida humana – tendo como suporte o gosto por uma saudável leitura.
A leitura é o mais importante instrumento à disposição do homem civilizado para compor um cenário inebriante, progressista caracterizado pela possibilidade da mudança e transformação dos objetos avaliados. Nada pode ser transformado se não estiver sob uma rígida coordenação avaliativa do sujeito como ser que pensa e quer fazer diferente. Portanto, a leitura fornece os alicerces eminentes para uma ruptura com a cotidianidade padronizada, tradicional. A leitura, por fim, é o alimento indispensável para o homem se fortalecer na ética, na caminhada da vida, na peleja pela sobrevivência moral. Não é possível fazer qualquer tipo de mudança sem ter como parâmetro uma rica releitura dos processos históricos. A história nos revela grandes momentos de reflexões.
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Caro Che Guevara de Shopping Center, só uma perguntinha básica: Se leitura e educação é tudo, como explicar tua nefasta, desastrosa e incompetente gestão no comando da secretaria de Educação?