Carlitos (1889-1977), o mago do cinema, criou uma das maiores e melhores obras de sua consolidada carreira cinematográfica: The Great Dictator (1941). Nesse período o cinema passava por uma intensa transformação – onde predominava o trabalho mudo das personagens, já se tinham filmes utilizando o recurso do som, ou melhor, a voz -, contudo, ele resistia a essa novidade. Entretanto, ele usa esse recurso fabulosamente para estabelecer uma sátira à A. Hitler (nazismo) e à Benito Mussolini (fascismo) durante a 2ª Grande Guerra Mundial. Carlitos após a divulgação de seu filme Humor Negro (1952), foi alvo do

governo norte-americano – sob o signo do FBI, controlado por J. Edgar Hoover (1895-1972), 1º diretor do bereau de investigação que o controlou durante 48 anos, de 1924 a 1972. Segundo o mentecapto Edgar Hoover, Carlitos era um comunista. Sobre essa acusação Carlitos disse: “Desde o fim da última guerra mundial, tenho sido alvo de mentiras e propagandas por poderosos grupos reacionários que, por sua influência e com a ajuda da imprensa marrom criaram um ambiente doentio no qual indivíduos de mente liberal passam a ser apontados e perseguidos. Nessas condições, acho que é praticamente impossível continuar meu trabalho do ramo do cinema e, portanto, me desfiz de minha residência nos Estados Unidos”. Particularmente, as décadas de 1950 e 1960, nos EUA, foi um período de ‘caça às bruxas’ sob o ponto de vista político, figuras públicas como John Lennon, M. Luther King Jr., Charles Chaplin e outros; foram perseguidos com a autorização do Congresso e a ação do chamado Macarthismo(1950-1957). Carlitos foi incluído na ‘Lista Negra de Hollywood’ em 1950 e mais 159 pessoas – entre intelectuais, escritores, atores, atrizes, diretores, roteiristas.
Reli, mais uma vez, o último discurso – O Grande Ditador e, confesso, é uma obra-prima. Tenho grande apreço pela seguinte passagem: “Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que a inteligência precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido”. Homem de extrema sensibilidade, visionário e profundo crítico da sociedade alienada por um sistema alienador e perverso. Ele nos desafia a perscrutar as sendas de nossa atávica caminhada e de que forma a percorremos. Ele nos instiga a rever alguns conceitos básicos que estão perdidos ante a ‘ganância’, a ‘brutalidade’ e o próprio individualismo egocêntrico do homem que detém o poder e faz desse poder instrumento de opressão e cercania. Carlitos é atual por que ele em cheio, atinge o trivial, recusa o óbvio, detona a certeza daquilo que não pode ser questionado. Sua sátira se move no terreno da polêmica e da coragem, com grande mestria, mesmo atuando numa realidade efervescente – como as décadas de 1950 e 1960 – nunca perdeu o sentido da razão em cada filme pormenorizadamente elaborado. Na verdade, Carlitos foi o maior gênio cinematográfico de todos os tempos. Perceptivo, conseguia vislumbrar a temática e explorá-la densamente em seus gestos e escrachados movimentos pantomímicos.
Carlitos é a última luz – por sinal, muito fértil -, o farol iluminado e incandescente que brilhou no seu tempo e eternizou-se em nossos corações e mentes. Carlitos é assim: mágico, amável, leve como uma pluma, provocador, incendiário, pacificador e risonho. Mas, acima de tudo, um contumaz crítico à falta de liberdade e democracia.
Basta ficarmos de frente ao texto d’O Grande Ditador para enxergarmos sua força, seu lampejo, seu desejo e sonho por um mundo melhor para toda a humanidade. Ele desprezava com toda sua força o ódio, a ganância, a brutalidade. Amava a suavidade, a paz, a democracia, a liberdade, a união, a coletividade, enfim, era um homem cidadão-do-mundo e queria o mundo para todos os cidadãos independentemente de credo religioso, convicção política, filosófica e étnica. E debochadamente combateu a pegajosa inveja, condenou a truculência, desprezou a covardia. Carlitos simplesmente fenomenal!
Explicitamente, ele propõe uma inversão do conhecimento. Pois, para ele o conhecimento deveria servir plenamente em favor da humanidade. Evoca a importância do progresso e da ciência e cita a ‘aviação’ e o ‘rádio’ como criações formidáveis para o fomento de uma cultura inovadora buscando a promoção do bem entre todos nós. Faz uma incisiva defesa da democracia e busca integrar conhecimento, progresso e ciência como caminhos para alcançar uma sociedade do bem-estar. Ora, o desenvolvimento da ciência e da técnica tem produzido excelentes resultados para a humanidade, entretanto, seu uso tem sido muito restrito.
O avião que poderia servir apenas como um objeto para ajudar o homem no seu cotidiano transformou-se numa escala de destruição monstruosa em campos de batalhas, a DNT do mesmo modo, e outras criações aterrorizantes como os tanques de guerra e navios porta-aviões e submarinos nucleares. Ele claramente denuncia o mau uso dessas criações maravilhosas. E quando exprime a palavra povo, há uma evidencia indiscutível: a necessidade desse mesmo povo tornar-se o detentor do poder e propugnar por uma governança literalmente voltada para os clamores dos oprimidos pelo sistema. Ele incita a esse povo a criar formas de vida e de relação totalmente novas pautadas na liberdade, respeito recíproco, na democracia renovada e na convivência harmoniosa.
Será que, o que Carlitos imaginou há 76 anos não se tornou uma dura realidade? Será que o homem tem amor ao próximo? Será que o homem tem em seu coração o Deus Pacificador? Será que foi eliminada a opressão contra quem pensa diferente em defesa de uma coletividade? Será que o conhecimento tem servido de fato, à humanidade, ou apenas a grupos corporativos contemporâneos em busca do lucro sobre o lucro? Será que a guerra foi suprimida da terra? E, qual o interesse da permanência das guerras em toda parte do globo terrestre? Quem se beneficia com ela? E quem sai perdendo?
De uma coisa podemos ter certeza, Carlitos engendrou um cenário futurístico e completamente real do que seria a moderna sociedade em que o predomínio de um sobre vários concorreria para a desestabilização da razão humana e de vários regimes políticos. E aí a ‘violência’ seria a ponta do iceberg para a ruina e para o caos contemporâneo. De fato, tudo estaria ‘perdido’!
Carlitos fora um grande escritor, diretor, roteirista, músico, dançarino, ator. Sabia tudo sobre a sétima arte mundial, aliás, ele a notabilizou, notabilizando-se com ela, e o mundo se curvou ante sua fascinante e encantadora obra cinematográfica.
Só para rememorar algumas de suas obras magistrais: O Garoto (1921), O Vagabundo (1915), as Luzes da Cidade (1931), As Luzes da Ribalta (1952), O Grande Ditador (1941), Vida de Cachorro (1918), Em Busca do Ouro (1925)…
Carlitos foi o imaginário surpreendente que soube como ninguém conquistar uma plateia com sua sátira e comédia pastelão. Seu imaginário sempre teve uma tendência vigorosa: a de repassar as formas sociais de vida numa perspectiva marcada pela ilusão de um mundo melhor e menos cruel.
A lucidez como apresentou sua obra cinematográfica talvez tenha sido o maior legado de sua existência. A grande lição que devemos aprender é que é possível acreditar num futuro melhor e na esperança de uma vida tranquila. O homem não pode desperdiçar seu tempo com o desnecessário, mas, somente com o essencial. E, assim, Carlitos enfeixou sua imaginação transbordante e transbordando o mundo com sua ‘doce’ magia.
Finalmente, as lições que devemos aprender com Carlitos é: o homem deve ser bondoso, deve preservar valores e princípios; não pode ser opressor e muito menos ganancioso e bruto; a guerra não faz sentido para o mundo, sendo apenas uma experiência negativa e destruidora; o povo deve e pode ser o único capaz de conduzir seu próprio modo de vida, usando do direito inalienável da liberdade e da democracia.
Carlitos deixou-nos um legado: sua obra poética como reflexo da razão apurada sobre a estrutura social e seus condicionantes implícitos. Agora, cabe ao indivíduo fazer sua escolha final: ser um mero expectador alienado e ficar no comodismo, ou então, romper com o trivial e tornar-se um sujeito dialético na história e lutar para refazê-la numa ótica revolucionária. Carlitos é um mito e mito não morre nunca, transfigura-se no tempo e no espaço!
Por Jacinto Junior


És um ….