Reavaliar a conjuntura política local: Uma necessidade da esquerda codoense (parte I)

Relendo o manuscrito de K. Marx “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”, publicado em 1852, notei como ainda permanece profundamente atual. Não quero fazer uma abordagem sobre o livro, mas, sim, a partir do fato relatado Marx reavaliar a conjuntura política local e tentar lançar as bases para uma discussão sobre a presença das forças políticas conservadoras, correntes de centro, de esquerda e de esquerda radical.

Professor Jacinto Junior
Professor Jacinto Junior

Por mais que se busque vislumbrar uma perspectiva democrática para ser desenvolvida como alternativa em nossa cidade a partir de 2016, é prudente reavaliar o contexto sociopolítico e seus futuros desdobramentos. Além disso, é imperativo fazer algumas ponderações sobre o Parlamento Municipal e suas figuras mais “expressivas” enquanto representantes do povo.

Marx avalia com mestria o fato em que Luís Napoleão é alçado novo Presidente da França, entretanto, ele nos alerta sobre a postura assumida e o pretendido por ele. Luís Napoleão tinha um sustentáculo a seu serviço chamado ‘Sociedade 10 de Dezembro’ – tal organismo incorporava os mais diversos segmentos da sociedade parisiense como: as prostitutas, os mendigos, vagabundos, soldados exonerados, gatunos, trapaceiros, ex-presidiários, escravos fugidos das galeras, batedores de carteiras, cafetões, donos de bordel, prestidigitadores, jogadores, carregadores, literatos, tocadores de realejo, trapeiros, amoladores de tesouras.

Segundo Marx essa relação eclética de Napoleão com esses elementos, tinha apenas uma função: utilizar esses elementos como meros beneficiários da instituição para atender a uma finalidade e ao mesmo tempo, os mesmos elementos se permitiam ser usados para beneficiar-se a si mesmo. Outro aspecto apontado por Marx neste sentido, é que Luís Napoleão enfrentava a Assembleia Nacional Constituinte, porém, não tinha uma base política na Assembleia Nacional Constituinte e, por isso, sentia-se valorizado com a ‘Sociedade 10 de Dezembro’ para fazer-se aparecer.

Mas a Sociedade 10 de Dezembro era uma Sociedade clandestina, pois, Luís Napoleão não podia ser reconhecido como dirigente da mesma. Mas deixemos de lado esse fato histórico e voltemo-nos para o presente e ao que interessa.

A luta de classes em nossa cidade ainda não encontrou sua verdadeira formula para enfrentar os elementos constitutivos da burguesia que permeia a política e conseguem sobreviver sistematicamente.

Iniciemos nossa abordagem a partir da segunda metade década de 2000. Naquele ano – 2008 – foi determinante para irromper com uma cultura política conservadora, diria mais que isso, profundamente reacionária.

As articulações ocorridas naquele período que concorreram para a composição das alianças pontuais – táticas e estratégicas – encaminharam-se para uma nova configuração: a da possibilidade de um cenário completamente novo e irradiador de mudanças. Assim, se constituíram as alianças tendo como carro chefe – a ala conservadora/reacionária – de um lado, liderada pelo então prefeito Biné Figueiredo do PDT, e seu companheiro de chapa Emílio Matos, representando o mais importante partido da América Latina, o PT; entretanto, essa aliança tão suada para Biné ao final causou-lhe um estrago que até o presente dia chacoalha sua base política em termos de indignação e, de outro lado, a ala denominada neoconservadora – que, anteriormente, eu havia feito um artigo fazendo critica ao supremo líder dessa facção política que me rendeu um processo judicial e que, tal líder, atualmente, já não faz mais parte do agrupamento do atual gestor -, com a figura de um “quitandeiro” como o próprio prefeito se autodenomina em várias de suas falas, tendo como seu correligionário de chapa o ex-prefeito José Inácio – homem de excelente oratória – arrebanhou o sonho e a esperança de um povo que desejava uma mudança na gestão pública.

Essa aliança do PV e PSB de fato, convertera-se numa espécie de alternativa altamente consensual e produtiva. O povo recebeu-a de braços abertos acreditando que esse caminho seria uma oportunidade para colocar nos trilhos a nossa sofrida e humilhada cidade. Na verdade, essa aliança não simbolizou efetivamente uma perspectiva de esquerda, mas, apenas um passo em direção a um avanço nos moldes neoliberais.

O fato real é que a vitória do centro contra a direita reacionária foi importante para que alguns elementos políticos mitológicos – engendrados pela cultura dominante do período sob a batuta do cacique Biné de que era indestrutível politicamente e que comandaria o poder por pelo menos um quarto de século – fossem desmistificados e destruídos! Ora esse discurso medíocre e dissociado da realidade não se materializou ao final das eleições de 2008, quando houve a derrota da direita reacionária.

A vitória do novo agrupamento comandada pelo “quitandeiro” – repito, palavra disseminada pelo próprio prefeito, a título de mostrar que continua sendo a mesma pessoa enquanto gestor -, inaugura uma nova fase política local em que pese a ruptura com o tradicionalismo e forte conservadorismo pontificado na pessoa de Biné.

Além desses elementos intrínsecos – incluindo as alianças pontuais – agora, um novo arcabouço político é construído para gerenciar a cidade. A estrutura constituída para afunilar uma gestão compenetrada e alicerçada no tripé: participação, desenvolvimento e democratização, tornou-se um verdadeiro problema para o governo, pois, cada um queria fazer algo para mostrar serviço.

Mas não aqui, cabe avaliar internamente o papel de cada segmento que estrutura o governo e, sim, os aspectos que resultaram em pontos cruciais originando as dissidências e rupturas de todas conhecidas por nós.

A primeira ala a romper com o atual governo foi o megaempresário. Os motivos dessa ruptura para mim são ainda desconhecidos. Mas o fator proeminente dessa dissociação política tem como pano de fundo o poder e o mando. Em seguida, o vice-prefeito José Inácio, também, rompe com a gestão atual, de igual modo, desconheço os motivos reais dessa dissenção.

Após essa separação política, a mídia conservadora e truculenta apostava na fragilização e, até mesmo no fim da gestão, pois, havia sido abandonada por expressões “representativas” perante a opinião pública – e, neste sentido, apregoava que o governo não seria capaz de soerguer-se e se recompor sozinho para enfrentar a próxima batalha -, além disso, afirmava também, que nesse processo divisionista quem teria os bônus em seu favor era o reacionário Biné.

De fato, se olharmos sob o prisma da correlação de forças entre as correntes, facções o atual prefeito encontrava-se numa situação delicada. Inclusive, alguns membros de seu governo rumaram para a extrema direita – simbolizada pelo megaempresário – que naquele momento, já se antecipava com uma pré-candidatura.

Já o vice-prefeito José Inácio também se inclinava para uma candidatura própria e independente, como vimos no meio do processo eleitoral de 2012 ele abandonou sua candidatura e o seu parceiro de chapa José Domingos, veio compor com o atual prefeito.

Fazer uma avaliação do processo eleitoral de 2012 é um imperativo para que se compreendam as tendências e as perspectivas para 2016. Nesse processo eleitoral de 2012 tivemos a presença de uma candidatura da esquerda na pessoa do Prof. Celso – Psol -, sua votação foi minúscula devido a dois fatores significativos:

  1. Por não ter um programa mínimo de governo, passou toda a campanha fazendo crítica pela crítica e, esqueceu-se de discutir com a sociedade civil sua plataforma de governo e,
  2. 2. Não mobilizou a categoria como sua principal aliada, e nem tampouco articulou seu nome com a base popular, fazendo campanha somente de televisão. Esses equívocos produziram uma votação minúscula. E precisam ser revistos e corrigidos.

POR JACINTO JUNIOR

7 comentários sobre “Reavaliar a conjuntura política local: Uma necessidade da esquerda codoense (parte I)”

  1. Eu nem leio, pois já conheço o sujeito e sei que vem muita ……Esse moço se prende muito ao Max. Te liga ….., as teorias contemporâneas é que estamos vivenciando, ou seja, teoria situacional.

    1. Caro Leonardo, o fato de você não ler e/ou não gostar do pensamento ou alguma obra de Marx (com r)implica afirmar que lhe falta maturidade para compreender a realidade social contemporânea. Agora, uma pergunta: de qual teoria moderna você se refere? Poderia, por exemplo, indicar-me um autor que utiliza uma dessas “teoria situacional”, pois, não consigo enxergar no quadro contemporâneo essa arqueologia intelectual sendo discutida por nenhum expert nessa matéria, ou, melhor dizendo: os melhores quadros intelectuais contemporâneos mundialmente respeitados como, Michael Lowy, José Paulo Netto, Slavoj Zîzêk, Frei Betto, Marilena Chauí, o geográfo norte-americano David Harvey, Márcio Pochmann, José Boaventura de Sousa, Estvan Meszáros, enfim, um contingente consideravel de pensadores contemporâneos têm como referência a filosofia marxista para refletir as questões relevantes que estão na “onda”, sob o viés político, numa perspectiva completamente inovadora. Acho que preciso mergulhar em outro planeta para conhecer de perto essa tese “situacional” que você emenda como uma nova forma de reavaliar a natureza humana e sua prospecção num futuro melhor. Não sei que escola você teoriza – se é que teoriza -, mas, espero que seja uma próxima à que é hoje a grande vedete para abrir o leque das transformações socciais. Apresente-me, por conseguinte, uma tese sobre a “teoria situacional” e convença-me de que ela é uma teoria crível, capaz de propor uma saída para os atuais dilemas que enfrenta o sistema capitalista – sustentado pela tese do neoliberalismo. Se você for capaz de fazer isso, então, estaremos aptos para um debate mais profundo sobre a conjuntura local, estadual, nacional e internacional. Abçs. Reflita sobre o cerne da “tese situacional”. Saudações democráticas.

  2. Acredito que no contexto brasileiro ,o que dirá no codoense, não existe uma direita e esquerda bem definidas. Temos partidos “de esquerda” que não seguem a ideologia, mas se servem dela (vide PT) e uma direita que ao menos em termos partidários não existe. A direita – infelizmente – se atomizou e isso ocorreu (e ocorre) por conta do processo de hegemonização cultural gramsciano que se deu (e se dá) através do “monopólio da virtude” muito bem estabelecido pela esquerda. Dizer que alguém é ‘reacionário’ por ser de direita ou ‘progressista’ por se identificar com a esquerda reflete bem esse processo. Pela análise feita em seu texto defender o pensamento liberal-conservador é (quase) um crime. Desculpe professor, mas a realidade é que as ideias contidas em obras como O Capital e O Manisfesto Comunista são impraticáveis no mundo real e só tem lógica para intelectuais ‘super-cabecinhas’ engajados na “construção” de uma sociedade (distópica) tão real quanto a “Terra do Nunca”. Saudações de um liberal-conservador.

    1. Caro Bidney (será que esse é o seu verdadeiro nome?) gostaria de debater com uma persona que se apresentasse civilmente (pois, seria mais bonito do ponto de vista do debate, o público conheceria o meu interlocutor e, dessa forma, o debate ganharia maior credibilidade, tornar-se-ia mais interessante, mas de qualquer forma achei razoável sua observação no que tange o caráter político entre esquerda e direita e, mais, particularmente, sobre a cultura gramsciana). Esta é a primeira vez que um comment faz referencia ao conteúdo apresentado por mim.
      Pertinente sua observação no que tange a questão gramsciana. Pois, Gramsci criou a teoria do intelectual orgânico. E, posso dizer-lhe que me enquadro nesse campo como um individuo “engajado” – você classifica todo intelectual que pensa contrariamente a uma elite dominante e estabelece uma critica à estrutura política conservadora como sujeito ultrapassado, inclusive, o pensamento é fora de foco e surreal; já não cabe dentro de um sistema e não possui racionalidade – ou seja, o padrão cultural dimensionado não é real e é impossível ser alcançado nos dias atuais – esta conduta é de todo pequeno-burguês que se opõe ao pensamento progressista, por isso, é que combatemos essa tese liberal-burguesa-conservadora. Ora, se temos uma existência concreta, vivemos em uma dada sociedade concreta e nos relacionamos concretamente e, ainda mais, temos uma produção intelectual construida concretamente ao longo da história que nos declara suas características; nos aponta algo que é útil e sociável, por que não acreditar nessa perspectiva? E, visceralmente, deparo-me com uma realidade que me reproduz somente prejuizo, coloca-me numa posição de subaternidade, vende-me fantásticas ilusões; e deparo-me com o atraso de toda ordem e, ainda assim, não posso emitir um ponto de vista que contrarie tal realidade social? Afinal, de que crítica nos serve para alimentar nossa dignidade? A do liberalismo acachapante que nos submete a uma dura e perversa condição de desumanidade? O capitalismo é apenas uma filosofia draconiana que fere em profundidade o mais belo exemplar da especie: o homem em sua totalidade.
      você, também, faz menção da teoria esquerda X direita e tenta nos convencer de que isso não é um parametro para distinguir a opção do indivíduo em ser honesto ou desonesto intelectualmente no interior de um sistema. Permita-me dizer: a) há uma clara distinção sim, entre ser de esquerda e ser de direita. Evidentemente, que há casos e casos, entretanto, a realidade demonstra que, o campo da esquerda é mais transparente e honesto do que o da direita conservadora. A história nos mostra essa faceta e, creio, que vós tendes consciência disso, pelo nível de arrazoado argumento apresentado. Por ser de esquerda, posso sem medo de errar que intelectualmente sou honesto e não concebo uma sociedade sob a égide do “espírito portentoso” do capitalismo como ideal e igualitário para o homem. Temos, certamente, posições opostas, como se evidenciam nesse momento. Claro que, você será um eterno defensor do neoliberalismo infamante, declarando-o como perfeito e capaz de nos oferecer uma vida boa e digna, basta que ele seja livre para atuar no invisivel mercado. Mas já temos provas contundentes de que o sistema é profundamente injusto, leviano e excludente, por natureza. Respeitosas e democráticas saudações de um convicto socialista!

      1. Me chamo Matheus Bidney, tenho 18 anos e frequento o 3º ano do Ensino Médio do Colégio Batista. Professor em dado momento o senhor afirma que a direita é necessariamente ‘desleal’ em termos intelectuais e a ‘santíssima’ esquerda seria a detentora da ‘lealdade intelectual’. E que geralmente a esquerda costuma ser mais transparente e honesta. E que o Capitalismo ‘desumaniza’ o homem. Permita-me discordar. Inicialmente porque a sua concepção da ideologia liberal-conservadora segue a clássica definição extremamente estereotipada que fora diluída na sociedade pela esquerda, muito provavelmente nomes como os de: Ludwig von Mises, David Horowitz, Rothbard e Schuon não estão incluídos no seu acervo particular de livros. A sua visão distorcida da ideologia liberal-conservadora (talvez por desconhecimento) me faz chegar a seguinte indagação: Quem de nós está sendo intelectualmente desleal? Segundo, a sua visão excessivamente romântica de que a esquerda é necessariamente mais ‘honesta e transparente’ do que a direita só demonstra como a sua ideologia coletivista introjeta a deslealdade intelectual em seus adeptos. Em que realidade países como Cuba, Coréia do Norte, China e a antiga URSS são mais transparentes (e “honestas) que democracias liberais como EUA, França e Inglaterra? Terceiro, a sua visão parte da falaciosa perspectiva ‘rousseauniana’ de que “o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe” só que com algumas adaptações marxistas. A verdade caro professor é que o ‘estado natural’ do homem é a violência, nenhum sistema político e/ou econômico pode mudar isso, não é o capitalismo que ‘desumaniza’ o homem, aliás o próprio conceito de ‘humanidade’ em uma perspectiva filosófico-darwinista é questionável. Hobbes muito sabiamente já dizia ainda no século XVII o quão animalesco é o homem. Saudações de um liberal-conservador “intelectualmente desonesto”.

        P.S: Até a sua saudação “socialista e democrática” é uma contradição, pois não existem relatos históricos de um regime socialista que não possua cunho ditatorial.

        P.S II: Gostaria de frisar que meu nome é Bidney.

  3. Ninguém convence doido, mas te liga nas teorias contingenciais ou situacionais como queira. Me faz um favor, pelo menos você que sabe teorizar, aprenda redigir teus cansativos textos, não se coloca crase antes de palavra masculino, a não ser no caso de uma regra especial – crase com os pronomes demonstrativos aquele (s), aquilo (s, Sempre que o termo antecedente exigir a preposição a, e vier seguido dos pronomes demonstrativos: aquele, aqueles, aquela, aquelas, aquilo, haverá crase. Ex: Falei àquele amigo, aspiro a isto e àquilo.

    Aproveite e estude sobre conjunções, há erros primários de concordância.

    1. Caro Leonardo, não há necessidade de perder as estribeiras e partir para a agressão (tal comportamento implica dizer que você não é uma pessoa estruturada internamente e vê nesse gesto a evidencia de uma possível conduta elogiável, porém, não o é; mas, sim, uma forma degenerada de convivência social). Se não tendes a capacidade intelectual de fazer uma defesa, não se atreva a emitir opinião sobre aquilo que não dominas. Lamento que seu pobre acervo cultural não consiga alargar-se dialeticamente. Obrigado pelas dicas, de fato, não sou um exímio e perfeito estudioso da nossa mãe vernacular, mas me esforço para proporcionar o mais importante para o homem: a reflexão dialética.
      OBS: Mas, insisto: apresente-me uma explicação plausível sobre o que você entende por ‘teoria situacional’. Quem é o principal autor que defende essa tese, qual a obra hoje que melhor explana essa teoria? Você bem poderia me indicar para, assim, me ‘situar’, teoricamente, em relação a essa inovadora teoria. Abçs. Despeço-me com efusivas saudações democráticas e socialistas!

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