O discurso liberal tem como pano de fundo, uma dupla finalidade ou tese, a saber: a primeira pressupõe uma sociedade plenamente desenvolvida economicamente. A segunda afirma nessa sociedade o homem transita livremente, pois, o instrumento que o impulsiona a realizar todas suas tarefas no contexto social coadjuvante é a meritocracia; argumento sofisticado para ludibriar o indivíduo sobre sua condição socioeconômica e a capacidade de se submeter a um processo intenso de exploração do capital.

Esse discurso ainda carrega consigo os elementos matriciais do classicismo político do século XVIII, especialmente, tendo como referência o teórico pai do liberalismo Adam Smith (1723-1790), natural da Escócia.

 A teoria de A. Smith afirma que a economia deve funcionar basicamente valorizando os seguintes princípios: não intervenção do Estado na economia; autorregulação do mercado; e livre concorrência. E tem sido essa peleja teórica e prática ao longo da história universal tentando ser um campo hegemônico e único, atropelando todo e qualquer movimento que conteste sua base instrumental-teórica. Mas, não pretendo abordar esse espectro econômico agora, pois, o ponto nodal que ora apresento, versa sobre a Liberdade e sua primazia como elemento fundante para o homem na condição de cidadão.

E, para iniciar minhas argumentações sobre o conceito dessa terminologia tão cara ao homem, trago como primeiro ponto a frase inebriante do ex-presidente, quando estivera em Orlando – EUA, (16/06/22) participando de um evento promovido por conservadores e admiradores. Ele declarou: “Pessoas podem viver sem oxigênio, mas jamais sem liberdade”; por ser ignorante e profundamente bizarro, tentou fazer um trocadilho para enaltecer o sentido da palavra, porém, soou muito mal; pois, se detivermos nossos olhares à frase, perceberemos o quanto ela ficara ridícula e sem nexo. Qual indivíduo pode viver sem ar? Nenhum e/ou ninguém, o ar é o nosso sentido de vida; agora, a liberdade pode ser desfrutada por todo mundo, independentemente de sua condição econômica, social, política, religiosa, filosófica e cultural. Mas ainda é necessário um esclarecimento sobre essa icônica frase. Ela, nas entrelinhas, dissemina um profuso ambiente contraditório, em que pese o lado mais sensitivo de um indivíduo que possui tal liberdade. O ex-presidente, sempre frisou a necessidade de o povo ter ‘liberdade’ e, sua tese se mescla à ideia de que o homem para ser livre precisa portar uma arma. Para ele, a arma é o único componente que garante ao homem a liberdade plena. Como entender um discurso que incentiva a violência e, ao mesmo tempo, propõe a liberdade como resultado dessa violência? A liberdade como tal não pode prescindir da violência para ser o que, de fato o é: a liberdade vivida de modo prazeroso entre os indivíduos no interior da sociedade baseada no preceito democrático. Para ser usufruída total e em toda sua extensão, a liberdade pode ser apropriada por todos os concidadãos sem a necessidade de portar uma arma. A arma que deve ser adotada para combater a antítese da liberdade é a Constituição e os direitos civis e sociais inscritos nela.

Para o ex-presidente, a palavra liberdade só tinha uma perspectiva: a de ser conveniente aos seus propósitos. Por exemplo: quando instiga o povo a defendê-lo como um gestor consequente e um exímio combatente ao sistêmico campo da corrupção. E, nesse sentido, ele e sua família estariam exercendo um papel maniqueísta. Ninguém pode supor que ele e seus admiráveis filhotes, estejam envolvidos com essa prática corriqueira – inclusive, sobre as famosas “rachadinhas” – estão acima de quaisquer suspeitas sobre atos de corrupção.

A liberdade não pode ser apropriação particular como se fosse uma moeda tangível para o usurpador pondo-a numa posição que só a ele compete fazê-lo. A liberdade é um usufruto político-social que pertence à humanidade; ela jamais pode se constituir num aparelho repressor e beneficiar apenas um gueto social privilegiado. A liberdade é um direito inafiançável, por isso, não pode ser tratada como um restolho como tem sido nos últimos quatro anos de governança temerária do conservadorismo estúpido e amante da ditadura. A liberdade é uma garantia indivisível do homem, só a ele compete o modo de como fará o seu devido uso, numa perspectiva civilizatória e democrática. A liberdade não se equipara à barbárie. Sob nenhuma hipótese a liberdade deve ser lançada ao delírio da insensatez e à paixão desmedida do ódio como subterfúgio para justificar a injustiça praticada em seu próprio nome. Um exemplo: afirmar que o Brasil vive em um sistema “comunista”, pressupondo que tal regime falta liberdade aos seus compatriotas. Outro exemplo: os defensores do ex-presidente derrotado, participando de eventos em frente aos QGs de todo o Brasil, convocando a “Intervenção Militar”, como alternativa para salvar o Brasil do terrível “comunismo petista”. Esse discurso fraudulento naufragou em nossa pátria, pois, o seu efeito ocorreu de forma inversa, devido às circunstâncias operadas nesses últimos quatro anos. O que o ex-presidente oferecia como parte constituinte de nossa democracia? a violência e a opressão aos grupos sociais que se opunham à sua famigerada gestão; e a liberdade imaginada aos seus filhos teve como pano de fundo sob a batuta das fake News formando o “cordão do mundo paralelo”.

Como clamar por liberdade, quando se evoca a “Intervenção Militar”, para derrubar um governo eleito de forma absolutamente democrática? Não podemos aceitar e nem tampouco compartilhar com essa heresia política deformante de um sistema e regime de governo sob a escrita da letra constitucional.

A verdadeira liberdade é aquela que carrego em meu espírito e não permito que ninguém a tome de mim, por entender que ela pode ser objeto de outrem, na mesma dimensão sendo a essência de sua plenitude terrena.

5 Responses

  1. Essas , digamos mensagens, do Senhor Jacinto são interessantes para pessoas bem esclarecidas. aliás, muito esclarecidas.
    De nada servem para grande parte da população que, infelizmente, não tem o devido preparo para entender o que o Jacinto pretende transmitir.
    Não tenho dúvidas sobre o grande conhecimento do Jacinto porém, acho que ele deverua ser mais simples e esclarecedor nas suas mensagens.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PUBLICIDADES