BRASÍLIA – O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Nunes Marques, apresentou a representantes de institutos de pesquisa uma proposta que gerou forte reação e controvérsia no setor.
O tribunal sugeriu a criação de um reconhecimento simbólico — uma espécie de “selo de acerto” — para as empresas cujos levantamentos mais se aproximarem do resultado final das eleições de outubro.
A medida, contudo, foi recebida com duras críticas pelo mercado. A Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa (Abepel) emitiu uma nota de repúdio, classificando a iniciativa como um “incentivo perverso” que confunde ciência com adivinhação.
O foco na reta final e a justificativa do TSE
A proposta foi apresentada durante uma reunião para debater a modernização dos levantamentos de opinião, abordando temas como:
- Novas metodologias e tecnologias de coleta de dados;
- Adequação das amostragens ao cenário das redes sociais;
- Desafios da atualidade na representação do eleitorado.
De acordo com o documento ao qual a imprensa nacional teve acesso, a avaliação para conceder o selo levaria em conta apenas as pesquisas realizadas nos últimos sete dias antes do pleito (as chamadas pesquisas de boca de urna e de reta final).
O argumento do ministro Nunes Marques é de que a premiação serviria como um estímulo para que as empresas aprimorassem continuamente suas metodologias e ferramentas ao longo do tempo.
”Ciência não é bola de cristal” – a reação do setor
Para as empresas de pesquisa, a lógica do tribunal distorce o papel real das sondagens eleitorais. Em posicionamento oficial, a Abepel afirmou que a proposta parte de uma premissa equivocada e criticou o foco no “resultado final”.
”Tentar incentivar que as empresas acertem o resultado final de uma eleição é uma forma de confundir ciência com bola de cristal.”
A associação alertou para os riscos práticos e éticos que um sistema de premiação desse tipo poderia introduzir no mercado:
- Incentivo perverso: Institutos com menor rigor metodológico poderiam simplesmente “copiar” ou convergir seus dados para a média do mercado na última semana apenas para evitar desvios e buscar o prêmio.
- Perda de foco científico: O objetivo das empresas deixaria de ser a produção do retrato mais fiel e técnico da realidade para se tornar uma corrida pela publicação de números que maximizem as chances de ganhar o selo de qualidade do TSE.
- Fotografia de momento: O setor reforça que pesquisas eleitorais medem a intenção do eleitor no momento em que são feitas, não se tratando de projeções ou previsões futuristas do resultado das urnas.
Próximos passos
Por se tratar de uma apresentação inicial feita pelo presidente da Corte, a proposta de criação do selo ainda não está em vigor.
Ela precisará passar por avaliação e debate interno pelo colegiado do Tribunal Superior Eleitoral antes de qualquer decisão sobre sua implementação para as eleições deste ano.