Ultimamente, diante de tantos acontecimentos, tenho pensado bastante sobre os julgamentos que fazemos ao longo de nossa vida. Por mais que muitos se defendam e afirmem que não julgam ninguém – e fazem isso temendo serem julgados -, eu preciso contar que, sim, todos nós julgamos algo ou alguém a todo instante. Analisar as opiniões dos outros com base em nossa realidade é natural. O importante é compreender as motivações alheias e os pensamentos distintos.

Inevitavelmente, comparamos com nossas próprias referências e com nossa realidade os parâmetros dos outros. Isso acontece de forma automática, sem que tenhamos poder de decisão sobre essa atitude. No entanto, existe um momento desse processo sobre o qual temos todo o domínio: o uso que faremos de nosso julgamento.
Podemos, por exemplo, considerar a prática do outro errada e simplesmente não usá-la na nossa vida – algo completamente natural, pois temos a liberdade de tomar as próprias decisões. O grande problema é utilizarmos nossa régua para criticar, rotular, discriminar ou inferiorizar. Ao tomar nossas verdades como absolutas, discriminamos aqueles com referências diferentes e nos colocamos numa posição de superioridade. Por causa da pressa em julgar, não notamos que os outros não são melhores nem piores do que nós. São apenas diferentes. Essa avaliação, no entanto, tem seu lado positivo. Quando analisamos os parâmetros alheios, conseguimos nos aproximar da outra pessoa e, também, entrar em contato com um olhar novo – o que é sempre enriquecedor.
Se quiser ir além na reflexão, coloque em juízo os próprios parâmetros. Quando encontrar conceitos diferentes dos seus, olhe primeiro para os próprios princípios e nunca os tome como absolutos. Busque sempre o diferente e não fique na dicotomia do “melhor” e “pior”, pois, quando você (nós) atua dessa maneira, sempre tenta se colocar acima (ou abaixo) das outras pessoas.
Na Bíblia, Deus diz que não devemos julgar as pessoas para condená-las, mas para distinguir entre o certo e o errado e promover o bem. O julgamento pode ser bom ou pode ser mau. Quando é para fazer a distinção entre o que está certo e o que está errado, é bom (Coríntios 11:13). Quando é para condenar uma pessoa sem dó, levando-a a tropeçar, é mau (Romanos 14:13). Jesus também disse que devemos olhar para nós mesmos antes de julgar os outros, porque podemos acabar nos condenando a nós próprios. Se você aponta o erro de outra pessoa, mas faz pior que ela, está sendo hipócrita e precisa se consertar (Mateus 7:1-5).
O importante é lembrar que nós não somos donos da verdade absoluta. Só Deus sabe todas as coisas e devemos sempre ter muito cuidado antes de julgar. Precisamos saber quando é importante dar nossa opinião e quando devemos deixar o assunto (Coríntios 5:12). Também devemos ter a humildade de avaliar nossa opinião e mudá-la se descobrimos que não está certa.
Julgar pode ser tomar uma decisão como árbitro ou juiz entre causas, ou avaliar alguma coisa para formar uma opinião crítica sobre ela. A Bíblia fala destes dois tipos de julgamento dos outros.
Deus é o Juiz que irá julgar todas as pessoas de acordo com o que fizeram (Salmos 98:9). Ele pode fazer isso porque é completamente justo e sabe todas as coisas. Aqui na terra, temos um sistema de justiça para manter a lei, julgar quem é acusado de a quebrar e punir quem é condenado.
Um bom sistema de justiça procura ser justo e imparcial, em imitação a Deus. Depois, nas coisas mais pequenas, que não precisam de tribunal, as pessoas recorrem a quem é mais velho, mais sábio ou tem mais autoridade para resolver os problemas e as disputas (Coríntios 6:5).
Por mais razão que supostamente se tenha em relação a outras pessoas, por mais que outras pessoas estejam em dificuldades ou inserindo em erros: evite julgar. Ninguém tem informações suficientes para fazer um veredicto e colocar-se acima dos fatos e da verdade. Quando se julga alguém normalmente nos baseamos em nossas réguas e nem sempre elas estão alinhadas em um nível superior para saber o que é o melhor, o que é certo ou o que é errado.
Entre um erro e outro algumas pessoas se encontram; entre um erro e outro se reconhece os verdadeiros amigos; entre um erro e outro ficamos diante de nossa verdade ou de nossa mentira; assim é o caminho de quem erra, mas pior é o caminho de quem julga, pois se coloca acima dos erros. Quando perceber que está julgando alguém, tente inverter os polos, transforme este julgamento em disponibilidade de prestar um auxilio dentro de suas possibilidades a esta pessoa, pode ser uma conversa esclarecedora; pode ser um amparo; uma sugestão que devolva esta pessoa ao caminho ou até mesmo ser uma boa-orelha, as vezes é somente isto que muita gente precisa, alguém que as ouça, alguém com quem possam desabafar.
A um nível pessoal, cada pessoa vê o que acontece à sua volta e tenta decidir se é bom ou mau. As conclusões a que chegar vão ser suas opiniões, ou seus julgamentos, e vão ajudar a decidir como deve agir. Por isso, proponho um exercício que todos nós devemos fazer em vários momentos de nossa vida: olhemos para nossas verdades e observemos profundamente sobre elas. Analisemos sua realidade e perguntemo-nos se devemos modificar alguma de nossas crenças – e pensemos sobre o motivo de uma eventual transformação.
Essa é uma atitude difícil, mas muito importante. Só desse modo nós nos abriremos mais para o diferente em situações que envolvam o pensamento coletivo – seja no trabalho, seja na sociedade, seja na família.
Não julgue, ajude, você vai sentir-se melhor ajudando do que julgando.
Carlos Magno da Veiga Gonçalves – Notário


boa tarde, sabia reflexão e linda palavra : Nao julgue, ajude, você vai senti-se melhor ajudando do que julgando , obrigado
Um artigo que nos faz pensar. O Carlos parece ser um grande pensador. Parabéns.