Por Jacinto Junior – Será que a UTOPIA morreu?

Não pretendo apresentar um texto acadêmico e/ou algo semelhante para aferir uma opinião sobre a questão do ‘desaparecimento da utopia’ nos círculos: político, cultural e intelectual na atual contemporaneidade e, sim, tentar apontar luzes para uma clara direção do sentido que a utopia representa socialmente.

Jacinto Junior
Jacinto Junior

Essa que é a matriz fundamental para estabelecer mudanças estruturais no interior de determinados sistemas seja na ciência, na política, na economia, na cultura, na razão, enfim, em todas as tendências em que se requer um corte epistemológico radical, ela se faz presente com maior intensidade: a Utopia. A utopia é, por assim dizer, o alimento essencial ao homem para sua luta cotidiana, é o símbolo de resistência contra toda forma de opressão e exploração; nela há o sentimento internalizado expressando a infalibilidade do sonho e da esperança que jamais deverão ser abandonados.

A luta social que o homem empreende independe de sua condição material, Marx nos ensina que são as circunstâncias históricas que nos faz sentir a necessidade de superar as barreiras e os obstáculos – pois, social e historicamente, somos objeto e sujeito num processo dialético permanente – que obriga-nos a desafiar tais circunstâncias. E de que forma iniciamos esse processo de acreditar numa infalível perspectiva revolucionária? Acreditando sempre no impossível. O possível é apenas o meio para atingir o impossível e, por isso, devemos nos preparar para vivenciar experiências positivas e negativas. Entretanto, o aspecto fundamental é não desacreditar nunca na perspectiva histórica de transformação das estruturas sociais conservadoras.

A utopia é o sinal indestrutível que fortalece nossa ideologia e nosso sonho e, por isso, permanecemos fieis à sua possibilidade intrínseca de se converter em realidade; mesmo que para isso seja necessário caminhar, caminhar e caminhar infinitamente.

Na atual contemporaneidade manifestam-se ditos e opiniões estereotipados sobre a ‘morte’ súbita da utopia. Tal pensamento tem uma fundamentação logico-político-domesticável. A regra padrão estatuída pela classe dominante é de que a criação utópica jamais poderá ser concretizada e não adianta lutar por essa perspectiva. De fato, a utopia é inalcançável e é nesse processo inacabado e interrompido e reconstituído que deve assentar o sonho e a esperança humana. Tudo que é passível de acabar imediatamente não tem sentido e não há sentido para adquiri-lo; nossa maior primazia é quando alcançamos os propósitos estabelecidos que, de certa forma é uma utopia alcançada. O maior dano causado ao nosso espírito é quando não tentamos superar nossos próprios limites. A cultura conservadora capitalista expressa seu sentido máximo na apropriação ilimitada da acumulação de capital e para realizar esse processo ele precisa de um meio para materializar seu objetivo objetivamente: a contratação da mão-de-obra. Não pretendo entrar no quesito econômico para descaracterizar o discurso dominante que se vale de uma crise para impor seu modus operandis de explorar e, sim, revelar a intenção por trás do discurso dominante conservador disseminando que realmente a utopia ‘morreu’. Vejamos alguns elementos que se opõem a essa forma dilacerante de domínio:

  1. Estranhamente, após a queda do Muro de Berlim, em 1989 (desmoronamento do ‘socialismo real’ no Leste Europeu), surgiu o anônimo Francis Fukuyama, cientista político e economista norte-americano, com uma obra chamada: “O fim da História e o último homem” (1992), nela, tenta esclarecer os acontecimentos ocorridos que provocaram a derrocado do sistema socialista na ex-URSS. Mais recentemente, ele publicou outra obra chamada “As origens da ordem política” (2013) e reavalia seu posicionamento sobre o conceito do “fim da história”, examinando o desenvolvimento da China e da Rússia. Para ele, o caráter histórico da história assume uma nova roupagem com a presença do mercado de economia aberta. Como se vê, é mais um pensador liberal-conservador que reconhece a continuidade da história. A história é por si mesma perene.
  2. A existência de conflitos no interior das sociedades é uma clara demonstração de que a história não teve seu fim e, por conseguinte, a utopia é elevada à condição de oposição – por um lado, e, de outro -, a luta dentro do sistema que antagoniza os interesses opostos de classes; pois, há uma proposição vigorosa no que concerne aos homens: a valorização de si mesmo e a melhoria das condições de trabalho a que estão submetidos desde os tempos mais remotos;
  • A luta por garantias de direitos sociais, liberdades coletivas e individuais constituem a fina camada do verniz que discerne a amplitude da utopia como fundadora da esperança e do sonho para uma perspectiva melhor;
  1. As condições materiais de vida de toda gente é um agente inusitado da utopia que se movimenta em todo espaço e se aloja no homem como instrumento insuperável da razão dialética (conhecimento da política, da ciência social, da economia, da cultura e etc.) buscando a verdadeira fonte da dignidade;
  2. O conceito de liberdade defendido pelas castas sociais conservadoras (elite dominante liberal do século 18 e que perpassa até aos dias atuais) é o inverso daquele defendido pela classe trabalhadora, pois, ela trabalha com a categoria coletividade, enquanto os liberais valorizam a categoria individualidade. Aí reside a mais perversa ideologia liberal contemporânea que sintetiza a ordem/divisão social do trabalho: Tudo ao capitalista e nada ao trabalhador.

Vimos basicamente cinco elementos distintos que norteiam o principio da não “morte” súbita da utopia: o argumento do ‘fim da história’, as contradições de classes, a união em torno das garantias de direitos, as formas diversas de lutas empreendidas pela classe trabalhadora e a questão da liberdade desalienada.

Todas essas categorias citadas quando apropriadas pela classe dominante ganha uma dimensão lógica: é-lhe atribuída uma tendência de caráter absolutamente ‘democrática’, isto é, tudo que está exposto no mercado – as condições materiais de trabalho, as mercadorias nas prateleiras e nos shopping centers – está para beneficiar o outro, porém, o outro sofre consequências incontornáveis – superexploração no trabalho, restrições na aquisição de bens duráveis e de consumo. A utopia existe para propiciar ao homem as condições necessárias para sua caminhada de forma equilibrada e inarredável.

O homem acredita em si mesmo como a historia existe para ele como modo de vivencia numa esfera de diferentes ondulações. E uma dessas ondulações é a capacidade da utopia de regenerar e se manifestar com todo vigor e intensidade no homem completamente arruinado. Ela lhe dará vida, restabelecendo seu modo de pensar e sentir o próprio mundo em torno de si, só que com um novo olhar. Um olhar com critério, com senso e criticidade ante aos acontecimentos históricos contemporâneos.

A utopia não excede a liberdade e, inversamente, a liberdade não desfigure a utopia, ambas precisam, mutuamente, se complementar num ciclo permanente de superação das abstrações antagônicas. O homem é constituído da razão material e espiritual, não pode se separar disso. Portanto, a utopia é parte indissociável do homem e ao imaginar em liberdade ele busca a utopia idealizada como consenso para sua dinamização social e cultural. Sendo a utopia um modo ideal e particular de vida superabundante, jamais se tornará realidade por conta do outro que se opõe a esse modelo de sociedade baseada na igualdade de todos. Esse comportamento individualista tem sua origem no conceito de liberdade defendido pelos liberais – aliás, todas as conjunturas sociais provem desse processo mediatizado por teorias conservadoras.

Como posso afirmar de per si que a utopia ‘desapareceu’ subitamente, quando olho para frente vejo uma mobilização, um movimento em direção a uma perspectiva inovadora, gente que acredita nessa luta interminável. Não, não concordo com a tese do falecimento da utopia na atual contemporaneidade. Ao contrário, ela está mais viva que dantes! Ela está revigorada, com energia exponencial. O fato de ela ter sido atropelada por circunstancias históricas não nos dar o direito de declarar seu desaparecimento pura e simplesmente, assim, como uma nuvem que passa e derrama uma chuva fina e rápida e desaparece. A utopia durará por toda a eternidade, só pelo fato de ser uma utopia encantadora.

Por Jacinto Junior

6 comentários sobre “Por Jacinto Junior – Será que a UTOPIA morreu?”

  1. E o PT, a Dilma e o Lula, segundo vc o maior lider da história, esqueceu, não tem mais argumentos para defender?
    Agora vai divagar sobre utopia!?

  2. Marx não poderia ser mais preciso: “O caminho do inferno está pavimentado de boas intenções.” A doce ironia do pensamento marxista…
    A utopia socialista nunca esteve morta. Ela vive, como diria Sowell, nos “ungidos”, em seres “moralmente superiores”, aqueles que em uma posição de extrema arrogância acreditam que podem fazer da sociedade o seu laboratório de testes e dos indivíduos peças descartáveis em seu tabuleiro social. Que entendem que uma economia extremamente complexa é melhor gerida por “meia-dúzia” de burocratas em uma sala do que pelo “laissez-faire”. Mas não há problema, todo o sacrifício humano, todo fracasso econômico é em prol de um “mundo melhor”, não importa o quão abstrato e confuso seja esse conceito. Da juventude ‘pra cá’ anos se passaram, mas continua sendo revigorante poder suspirar com a Revolução Cubana, não é mesmo?
    De fato, como o brilhante livro de Raymond Aron coloca, o socialismo é o ópio dos intelectuais…

  3. Caro Bidney:
    A insensibilidade é notável nos liberais – classificados como europeus. A pedra de toque do desenvolvimento econômico socialista é a distribuição de renda para todos de forma que não haja nem ricos e pobres, mas iguais. A “utopia não é uma exclusividade do intelectual, mas sim, a fonte inspiradora de justiça social entre os que pensam diferentes em defesa dos desiguais”. O mercado é uma fantasia que alimenta somente os exploradores e destitui a dignidade do trabalhador. O desenvolvimento econômico na ótica capitalista é apenas acumulação e exploração.

    1. O credo na utopia não é exclusividade de um “tipo”, mas, certamente, sua divulgação (leia-se doutrinação) parte de um segmento bem específico – intelectuais bem intencionados. Um perigo…
      Como estudante, fui levado a “idolatrar” figuras notáveis do pensamento antiliberal como: Marx, Marcuse, Adorno, Habermas, Horkheimer, Foucault, Zizek… Enquanto isso, ideias libertárias em sala eram reduzidas a menções. A questão é: As instâncias de produção de razão pública, representadas aqui por intelectuais e professores, não estariam servindo primordialmente de militância a uma dúbia causa? Creio que sim. (Vide nosso patrono da educação – Paulo Freire – e sua Pedagogia do Oprimido).
      Sobre o Capitalismo, deixo uma frase de Winston Churchill que representa bem o meu pensamento: “O vício intrínseco do capitalismo é a partilha desigual do sucesso; o vício intrínseco do socialismo é a partilha equitativa do fracasso.”

  4. Essa coisa de fim da história, fim da utopia, fim do socialismo, do autoritarismo parece uma coisa meio sem noção. A utopia como sonho sempre irá existir em todos que acreditam em mudanças…

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