SUPERAR A INDIFERENÇA E A INTOLERÂNCIA PELO DIÁLOGO

Noutros textos, declarei que o ‘animal spirits’ carece se reeducar, se refazer, como ente social numa existência que, a priori, determinará sua personalidade e seu caráter; entrementes, o ponto culminante ainda persiste como alavanca para distensionar o autorreconhecimento como uma propriedade imanente, numa sociedade ambígua, contraditória e prenhe de algazarras ensurdecedoras, tipo:
fingir que uma dada realidade não existe, mas, acredita, copiosamente, numa glamourosa enganação (mentira frontal) ditada por outrem que alimenta o ego faminto de quem deseja alucinadamente ter tal reconhecimento social – o que, classicamente, é definido como ‘animal spirits’, em sua total decadência
ética, moral e intelectual.
Bem-vindo ao Brasil real e ao Brasil manipulado!
Ora, quando olhamos para a quadra histórica – ou melhor, aos eventos históricos
contemporâneos recentes brasileiros – somos surpreendidos pela banalidade inigualável e a descrença completa na factual realidade contemplada.
Esse comportamento psicossocial tem uma origem singular: a incondicionalidade do humano em caracterizar-se como ‘animal spirits’, – sim, aquele definido pelo pensador grego Aristóteles – ante o elemento constituinte que possivelmente daria os contornos para forjar suas análises intelectuais mediante a um modo de pensar lúcido, crítico e independente.
É nesse campo heterogêneo – onde aparece o aspecto político, econômico, social, cultural, moral, religioso e ético – que o ‘animal spirits’ apreende todas as categorias como agente revolucionário em permanente devenir e vai formatando sua concepção do mundo dialeticamente; como analisa Gramsci, cirurgicamente, dividindo a postura dos grupos em duas vertentes bem definidas; de um lado, os que acreditam na ‘modernidade’ e, de outro, os que vivem presos ao passado de modo ignóbil e ‘atrasado’:
“E ocorre, de fato, que grupos sociais que, em determinados aspectos, exprimem a mais desenvolvida modernidade, em outros manifestam-se atrasados com relação à sua posição social, sendo, portanto, incapazes de completa autonomia histórica” (1989:17).
E é nessa linha propedêutica que desfolharei uma avaliação sobre o ‘animal spirits’ diante dos fatos histórico-contemporâneos relevantes.
Na atual conjectura o ‘animal spirits’, não na sua totalidade, mas, num porcentual bastante significativo, encontra-se mergulhado na teia da alienação.
Essa alienação tem produzido um comportamento psicossocial extremamente nocivo ao seu modo particular de perceber a realidade material concreta – pondo-o num ponto claramente confuso e desconexo.
A política é a arte de fazer acontecer as obras estrutural e estruturantes em todas
as suas dimensões – na esfera municipal, estadual e federal – para beneficiar a comunidade de modo geral. Nesse processo, temos, agora, um novo ‘surto cultural midiático’ que tem no bolsonarismo a demolição mais notável da pseudointelectualidade projetando uma performance delirante de como uma sociedade deve ser constituída.
Um exemplo disso: a violência insana como
alavanca fundamental na relação social; engendrando novas situações caracterizadas pela imanente perversão dos fatos e a aceitação normatizada resultante dessa cultura impositiva/autoritária.
O campo conservador, por conseguinte, legitima a violência, a indiferença, a intolerância e agredi formalmente o pensamento crítico e autônomo com a tese infundada da ‘guerra cultural’, travada nas universidades.
Esse tópico conservador, tem em Gramsci, o principal alvo, pois, ele elegeu como ponto
elementar e indispensável para a transformação do sujeito e da sociedade civil através da educação e a educação rigorosa, passa, inevitavelmente, pela Universidade.
Por isso, retomo a questão central do ‘animal spirits’ a se ‘reeducar’, a se ‘refazer’ intelectualmente, desprendendo-se das amarras ideológicas do corpo teórico liberalista que impulsiona a individualidade e a meritocracia – tese que mistifica a capacidade do sujeito em abdicar da solidariedade tornando-se insensível e áspero do ponto de vista social, pois, a essência desse discurso dominante é manter os estratos sociais inalterados, ao mesmo tempo, em que fomenta a ideia básica de que para o ‘animal spirits’ alienado, o compromisso mais importante é obter êxito atropelando a todos e a tudo.
Ao refletir sobre a necessidade do ‘animal spirits’ superar a alienação, para enfrentar a indiferença e a intolerância, é por entender que a conduta dos adeptos ao movimento conservador que tem na figura do ex-presidente Bolsonaro (2019-2022) a extensão clara do movimento ocorrido na Alemanha de Weimar, no período de 1933 a 1945; e que tentam, no Brasil, ressuscitar o mesmo sentimento, a mesma intimidade e o mesmo espírito da brutalidade e, isto, diz tudo, sobre a forma como se posicionam esses adeptos alheios aos verdadeiros propósitos de uma sociedade fraterna, solidária e democrática.
Uma sociedade verdadeiramente democrática, não precisa empunhar o bastonete da violência como mecanismo alternativo transformador, basta imputar o diálogo respeitoso para afrontar – no bom sentido do termo – o conhecimento e o conhecimento por sua vez, materializará a estrutura horizontal da participação social dos sujeitos históricos engajados.

