Por Xico Paiva – Racismo, futebol, alegria e carnaval

Não existe racismo? Quando uma criança negra não ouve falar de seus iguais na escola, o que isso significa?

Resposta/desculpa: os professores não foram formados para trabalhar temáticas étnicas e raciais na sala de aula, além disso, não existem materiais pedagógicos adequados.

Um fato: os materiais não somente existem como são abundantes, assim como cursos para professores.

Não existe racismo? Quando um jovem negro é morto pela polícia, o que isso significa? Resposta/desculpa: ele era suspeito. Por que os negros sempre são suspeitos?

Fato: mais de 70% dos jovens mortos no Brasil são negros, entre 15 e 29 anos.

Não existe racismo? Se uma mulher negra é hostilizada por causa de seu cabelo, o que isso significa?

Resposta/desculpa: a culpa é dela que podia ter alisado o cabelo. Em outras palavras ele devia negar sua “identidade” e entrar na moda, no padrão.

Fato: existe um padrão estético de beleza que nega a existência da beleza negra. A mulher negra, para esse padrão, é um adorno carnavalesco.

Não existe racismo? Nos meios de comunicação de massa os negros são relegados a papeis subalternos, o que isso significa?

Resposta/desculpa: os meios de comunicação só retratam a realidade. Ser negro não é real, é ficcional ainda mais com diploma.

Fato: os meios de comunicação, em geral, discriminam as pessoas negras. Por isso, os jornalistas e apresentadores negros em grandes veículos são pouquíssimos ou inexistentes.

Não existe racismo? As pessoas são contra as cotas raciais, o que isso significa? Resposta/desculpa: apenas defendem o mérito. Não há mérito em ter sobrevivido a um holocausto de quatro séculos no Brasil?

Fato: a universidade pública não deve ser privilégio de alguns, como foi até bem pouco tempo, deve ser ocupada pelos sujeitos na mesma proporção que eles existem na sociedade.

Não existe racismo? Se você não ver pessoas negras em cargos de alta representação social, o que isso significa?

Resposta/desculpa: existe sim! Eu conheço um negro, uma negra que ocupa um cargo e tal, assim assado.

Fato: pessoas negras em cargos de alta representação social fora do mundo artístico e esportivo são exceções.

Não existe racismo? Se você por ser negro é acompanhado pelo segurança do supermercado, da loja, do shopping, dentre outros; o que isso significa?

Resposta/desculpa: foi só um mal entendido.

Fato: por que o mal entendido é sempre com uma pessoa negra? As representações sociais dos grupos são construídas a partir da forma como os sujeitos são expostos. Como as populações negras são apresentadas de forma estereotipada: negro x pobreza, negro x violência; o saldo é uma imagem irreal e preconceituosa.

Não existe racismo? Se as pessoas seguram as bolsas com mais força quando passam por um homem negro, o que isso significa?

Resposta/desculpa: não pensei que era ladrão, não. Sempre faço isso mesmo.

Fato: durante séculos as elites coloniais para justificar a escravidão cunharam uma imagem negativa das populações negras. Ainda hoje, existe a tendência de associação do negro a coisas negativas: “a coisa está preta”.

Não existe racismo? Em uma blitz a pessoa negra é quase sempre parada, o que isso significa? Resposta/desculpa: é só procedimento de rotina.

Fato: pessoas negras são tratadas como suspeitas.

Não existe racismo? Os negros são maioria da população carcerária do Brasil; o que isso significa?

Resposta/desculpa: negros são violentos.

Fato: é grande o número de crianças negras que abandonam ou desistem dos estudos, que vivem em locais em que as políticas públicas são precárias ou inexistentes e quando adultas encontram maior dificuldade de acesso ao mercado de trabalho.

Negamos o racismo por uma causa simples: ele não combina com o país que imaginamos ser. O país da alegria, do futebol e do carnaval.

Por Xico Paiva

8 comentários sobre “Por Xico Paiva – Racismo, futebol, alegria e carnaval”

  1. Gracas a Deus aqui no Brasil não existe racismo. Aqui o negro ou é cantor ou é jogador de futebol. O racismo se VC analisar parte do próprio negro, se fazendo de vitima, mas isso já está mudando. Se organizando e lutando pelos seus direitos. Porque no Brasil a justiça e pra quem tem dinheiro e não pra quem tem direito. Ah…sou negro.

  2. Excelente o texto e muito pertinente para o momento, a partir de amanhã o movimento negro por todo Brasil estará celebrando a semana de denuncia contra o racismo, em Codó vamos para 11ª edição com varias atividades que incluem a 61ª Festa do Negro de Codó, no dia 13 de maio, evento organizado pelo Centro Operário Codoense com o apoio da SEMCIR – Secretaria Municipal de Cultura e Igualdade Racial. Parabéns Acélio, precisamos mesmo divulgar estas matérias afirmativas.

  3. Rapaz, o racismo começa entre a própria comunidade negra. É só reparar que a grande maioria dos negros (jogadores de futebol, artistas, cantores..etc) que conquistaram fama e fortuna não se casaram com negras, ao contrário, casaram com mulheres brancas, loiras e de olhos azuis. E se eram casados com negras antes da fama e da fortuna, quando conquistaram, a primeira coisa que fizeram foi se separar e procurar mulheres brancas, loiras e de olhos azuis para se casar novamente. Tô mentindo, Terta?

  4. Sou negão e gosto de loirinhas, pra misturar um pouco né?…………….. Isso é babaquisse na negraiada. Cota pra negro é racismo, Joaquim Barbosa que é negro, ex-ministro do Supremo Federal é contra esse negócio de cota.

  5. Pingback: Racismo, futebol, alegria e carnaval - Geledés

  6. Não consigo imaginar as terríveis lástimas que meus antepassados sofreram, mas não entendo que as ações afirmativas sejam a solução para os problemas decorrentes da escravidão no país. O economista negro e norte-americano Thomas Sowell discorre sobre isto em “Ação Afirmativa ao Redor do Mundo”. Através de um trabalho minucioso por todo o globo, ele chega a conclusão de que as “ações afirmativas”, apesar de partirem de uma premissa “generosa”, se mostram ineficientes, além de, na maioria massiva dos casos, acabarem se reduzindo a uma “ação eleitoreira permanente”. Aquilo que deveria ser temporário permanece até que em alguns casos, como no Sri Lanka, o convívio entre as diferentes etnias se torne insustentável.

  7. Xico,oque possibilita um Ronaldinho se assumir como branco? pele mais clara,dinheiro e suas namoradas.Mas como indivíduo nascido no bairro de Marechal Hermes,subúrbio do Rio de Janeiro Ronaldinho muitas vezes foi negro,e se fosse norte-americano sentiria isso na pele.O racismo no Brasil tem capacidade de se esconder.Ele se encontra intocável.Há uma forma esclarecida de trabalhar as relações raciais no Brasil? “onde você guarda seu racismo”? Para falar de reconstrução iremos invocar a história,onde muitas vezes tem o poder de criar um passado glorioso para um presente sem sentido.A questão racial no Brasil tem sido tratada a partir do resgate de uma sectarização histórica dos negros e não de uma reconstrução histórica considerando o negro como sujeito histórico.Quilombo não significava escravo fugido.Os quilombos foram uma alternativa de sociabilidade encontrada e tiveram um papel essencial na construção da nossa história.Eles foram embrionários na formação desta utopia do novo caminho.Isso é uma grande prova de que ainda há a possibilidade de sermos criativos,e produzirmos alternativas em épocas do labirinto capital.A África foi berço do homem e pode ser ainda futuro da humanidade.

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