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Volto ao assunto do título, após manifestar-me há mais de um ano, neste blog, com alguns aditivos, por absoluta inflexibilidade em aceitar a intromissão do Estado na vida do cidadão, que já é demasiadamente onerado, exigido e regulamentado, por normas baixadas a cada dia, sem o menor sentido. É um assunto espinhoso. Mas, coragem e vamos lá. O cipoal burocrático persiste no Brasil porque desbastá-lo implica uma tomada de risco: retirar poder do Estado e aumentar a cota de liberdade e responsabilidade das pessoas.

Tenho um amigo que, me contou, abriu uma MEI e virou “microempreendedor individual”. O cara foi lá, abriu a empresa e começou a trabalhar. Prestou alguns serviços até que um cliente disse que só lhe pagaria se ele abrisse uma conta pessoa jurídica. O sujeito foi ao banco abrir a conta e lhe pediram a carteira de identidade. Ele havia perdido a carteira de identidade, mas tinha a carteira de trabalho. Não deu. Foi ao Viva Cidadão fazer a identidade e lhe pediram a certidão de nascimento. Mostrou a carteira de trabalho e outros papéis, que lhe identificavam, tais como notas fiscais, fichas de cadastro em lojas, etc., mas não adiantou. Precisava da certidão. Ele era novo em Codó e pediu para um parente revirar suas coisas em Peixoto de Azevedo (MT), onde havia residido por algum tempo. O parente achou e mandou pelo correio. De volta ao Viva Cidadão lhe pediram dez dias para entregar a carteira. Depois voltou ao banco, entregou a papelada, desta vez com a carteirinha, e lhe prometeram que em até dez dias teria uma resposta da análise dos documentos. O dinheiro ainda não recebeu, mas, como bom brasileiro, não desiste nunca.

Escritor e notário Carlos Magno

A burocracia no Brasil é sempre perfeitamente lógica (Assim dizem os burocratas). Não é lógico mostrar a identidade para abrir a conta no banco? Além disso, cá entre nós, custa alguma coisa mostrar a certidão para fazer a nova carteirinha? Custava alguma coisa o sujeito andar com o documento em uma pasta, organizado, em vez de deixar em uma gaveta na sua residência antiga? Qual é exatamente o problema?

Diria que é exatamente este: cada exigência burocrática tem sua lógica (alegam os criadores de regras) e poderia ser, com alguma dose de organização, atendida por qualquer pessoa ou empresa. É este o caso das regras que compõem o cipoal do pagamento de impostos e retirada de documentos no Brasil. É um absurdo. Cada uma tem sua explicação. No conjunto, é por causa delas que estamos em 181º lugar entre 190 países no ranking do Banco Mundial que mede a facilidade para pagar impostos e retirar documentos. Por isso, nossas empresas gastam 2.038 horas todos os anos para lidar com tributos, contra 163 horas na média dos países da OCDE (Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico) (Dados da revista Época).

Também é por isso que estamos em último lugar, entre 29 grandes economias, no ranking de encargos trabalhistas elaborado pela Rede Internacional de Contabilidade e Consultoria UHY, com sede em Londres (Dados da revista Época). Não faz sentido limitar os contratos temporários a 90 dias? Não é lógico pagar 40% de multa sobre o fundo de garantia do funcionário demitido? Não é lógico, aliás, que o dinheiro do fundo seja gerido por um conselho de 24 pessoas, junto à Caixa Econômica Federal? O pessoal não torraria tudo, se cada um pudesse decidir por conta própria o que fazer com seu dinheiro? É tudo lógico, não é mesmo? Assim pensam os burocratas de plantão. São pessoas instaladas em determinadas funções, – em todas as áreas – que fazem unicamente pensar em como editar uma regra a cada dia. Eles sempre acham que falta alguma regra para impor ao brasileiro. Denominam isto de “controle do Estado”.

Na semana passada, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, prometeu reduzir a burocracia para pagar impostos. A promessa já havia sido feita no ano passado, mas não é esse o ponto. Meirelles tem crédito, porque foi o arquiteto da PEC do limite do gasto público. Ele diz que há um time de técnicos trabalhando para descobrir que regras, exatamente, é possível “desregrar”. Me lembrou o novo vereador paulista Fernando Holiday e sua ideia de fazer um “revogaço” na cidade de São Paulo. Ao invés de criar novas regras, descriar.

Achei a ideia muito boa. Oxalá ela inspire vereadores, deputados e grupos de cidadãos Brasil afora. Apenas acho que nosso problema é muito mais amplo que suprimir essa ou aquela regra tributária, trabalhista, comercial e de todos os órgãos públicos.

Vamos lá: por que precisamos de um título de eleitor? Por que cargas d’água precisamos (eu mesmo, desatento, descobri isso tempos atrás) renovar a carteira de motorista a cada cinco anos? E agora, na minha idade tem que renovar a cada três anos. Para que o pobre coitado desempregado tem de gramar na fila de uma agência do Sine para tirar o seguro-desemprego?

Revirar essas coisas é mexer com o Brasil barroco em que nos tornamos. Não são apenas as 2 mil horas que as empresas gastam para lidar com seus impostos. (Dados da revista Época). É o tempo incontável que perdemos todos os dias para carimbar o óbvio em cartórios (logo eu) e pagar multas de R$ 3,51 porque não fomos votar nos dois turnos das últimas eleições. Mas, enfim, é a regra.

É imensamente difícil mudar este país barroco. Por uma razão: apesar de concordarmos que toda essa burocracia passou do ponto, a opinião será outra quando passarmos a analisar regra por regra, documento por documento, multa por multa. A cada regra corresponderá uma certa “racionalidade” e um grupo disposto a defendê-la. E mais: a supressão de cada regra não fará grande diferença na vida de ninguém, mesmo que a soma das regras piore a vida de todo mundo.

Por essa razão prosaica, o desejo abstrato de fazer a grande mudança pode ser forte, mas é fraco o incentivo concreto para fazer cada reforma. É exatamente o mesmo problema enfrentado pelos projetos de redução do tamanho do Estado. A extinção de qualquer órgão público não resolverá o problema fiscal, ainda que uma redução coordenada de muitas repartições, autarquias, fundações, empresas e fontes de gastos não prioritários poderá oferecer uma resposta.

Viramos um país campeão em burocracia essencialmente porque o indivíduo, o “sem corporação”, é sub-representado em nosso mundo político. Ninguém pergunta, numa tarde quente de Brasília, ao se discutir uma nova regra, se ela é estritamente necessária e quantas horas da vida de um cidadão ela vai custar. É no silêncio dessas tardes quentes que perdemos a mão. Há um problema ético aí. Um punhado de gente por vezes bem-intencionada toma decisões e todos pagam a conta. De bico calado. Pois é “proibido” reclamar, senão você fica marcado para sempre. Encaramos filas nos Bancos e órgãos oficiais, carregamos nossos documentos, nos adaptamos. Formamos filas nos domingos de votação, para “justificar a ausência”, pagamos as multas e corremos atrás da papelada.

Se nossa liderança pública quiser mesmo reduzir a burocracia, o ponto de partida é assumir que toda norma a ser extinta supõe uma tomada de risco. Risco de que alguém não diga a verdade, que alguém não pague, que um carimbo a mais poderia ter evitado alguma pilantragem. Reduzir a burocracia, no fundo, é um exercício de transferência de poder. É isso: significa retirar poder do Estado e aumentar a cota de liberdade e responsabilidade das pessoas. Voltarei com mais comentários.

Carlos Magno da Veiga Gonçalves – notário

2 Respostas

  1. Ótimo texto!
    O Brasil sempre teve um estado paternalista e isso criou uma sociedade dependente do estado dá mesma forma que​ uma criança mimada depende dos pais. Basta ver: brasileiro adora dizer que “se deve criar uma lei pra resolver isso ou aquilo”. Brasileiro detesta políticos mas adora o estado. Não é atoa que temos uma economia engessada e eternamente debilitada.
    Esse assunto é interessante porque está na base dos problemas do país. Não adianta fazer greve por isso ou aquilo, se não destravar nossa economia com mais liberdade econômica.

    Sobre seu amigo empreendedor, só tenho a lamentar. Não é fácil empreender num país que trata empreendedores como bandidos egoístas.

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