Se algum dia me perguntarem se tenho fé, esperanças em um mundo melhor ou nas pessoas, direi que tenho dúvidas. Não acho isso bonito, sei que minha resposta não é elegante, também não acho esse meu conceito legal. Dirijo-me dessa forma sem emoções ou impulsos ressentidos, sem mágoas da vida. Só não vejo uma ocasião decente para considerar o mundo e as pessoas (estou incluso nessa avaliação) um mar de rosas. “Pai, por que me abandonaste?”, disse Cristo na cruz, em agonia. Deram a Cristo, filho de Deus, o privilégio da dúvida. Por que não podem dar para mim, filho de um reles mortal? Não posso ser condenado por isso. Simples assim!
Certa vez, perguntaram para Franz Kafka (escritor Tcheco, 1883-1924) se ele tinha esperanças. “Esperanças há muitas, mas não para nós”. Disse Kafka.
Kafka era um escritor pessimista, costumava dizer que seu pessimismo era seu pecado. Suas obras, como “A Metamorfose”, por exemplo, carregam uma reflexão obscura de um mundo opaco, sem sentido. Seus contos expressam uma linha de relações amargas entre as pessoas. A lucidez de seus personagens está na certeza de serem os únicos animais conscientes de carregarem a morte nas costas durante a vida inteira.
No romance “A Metamorfose”, seu personagem principal é o jovem Gregor Samsa, ele foi menosprezado pela família depois que acordou de um sono, repentino, transformado em barata. Tornando-se um inseto, para sua família, seu valor como ser humano e ente familiar diluiu como pó desnatado em contato com água. A linguagem básica da afeição entre eles ficou atrofiada. Ele não trabalhava mais em razão da mutação. Não produzia mais, não se relacionava com as pessoas, dessa forma, o abandono familiar misturado com sua melancolia e ostracismo foram inevitáveis. A pungência, aqui, é o carro chefe dessa história.
Há dois anos, tive uma experiência marcante de vida. Fiquei três meses, dia e noite, dentro do H.G.M (Hospital Geral Municipal), acompanhando meu tio vítima de diabetes. Nelson Rodrigues dizia que “a melhor maneira de se fazer filosofia é dentro dos hospitais, sobretudo públicos”. Nesses locais não vivemos com fantasias, não sonhamos e só os pesadelos são constantes. O gosto amargo da tristeza paira diariamente sobre os leitos porque, lá, andamos sobre tumbas em meio ao pó que somos. A indiferença de alguns profissionais, principalmente médicos e enfermeiros, se assemelha com a indiferença das paredes.
Foi nessa atmosfera mórbida que presenciei a generosidade de uma mulher junto ao marido, vítima de AVC (Acidente Vascular Cerebral), em completo estado de coma. Sua cama era próxima a do meu tio. Não existem apartamentos em hospitais públicos, os leitos são coletivos.
De repente aquela mulher estava ali, de aspecto austero, cuidando do seu marido, carregando no rosto as marcas de noites mal dormidas. Em pé, em meio aos gemidos roucos balbuciados pelos enfermos, ela era uma santa que desceu do céu para dissolver, por alguns minutos, a ordem miserável do mundo. Sua dedicação era impressionante. O brilho do seu amor contrastava com a essência do local, isso para mim era formidável. De onde vem tamanha bondade? Perguntava-me.
Curvo-me diante de cenas como essa. Generosidade e humildade são elementos sempre imbatíveis. Sempre que manifestam atitudes assim, o espírito se ergue e o corpo cai de joelhos. Paraliso-me com tal grandeza. Afasto-me lentamente do meu ceticismo. Esquecemos de situações iguais as de Gregor Samsa. Logo em seguida, nos fazem lembrar que ainda vale a pena apostarmos no dia a dia.
(KLEBER SANTOS)