SAÚDE: Clima pode interferir em morte por AVC e enfarte

FELIPE ODA

A temperatura ambiente pode estar relacionada a mortes por enfarte do miocárdio ou por acidente vascular cerebral (AVC) do tipo hemorrágico registradas na cidade. A hipótese foi levantada por uma pesquisa coordenada pelo Hospital Albert Einstein em parceria com a Secretaria Municipal da Saúde e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Além das variações térmicas, a umidade relativa do ar também é apontada como possível fator de risco.
No caso do AVC hemorrágico, por exemplo, os pesquisadores perceberam que a incidência de mortes aumentou na capital nos dias em que a temperatura oscilou exatamente 3ºC, para mais ou menos.

“Ainda não compreendemos essa correlação muito bem. Mas vimos que, geralmente, os pacientes passaram por variações como essa de seis a 24 horas antes do AVC”, diz o coordenador do estudo no Einstein, Bento Fortunato Cardoso dos Santos. Diariamente, cerca de cem pessoas sofrem um AVC no Estado, segundo a Secretaria Estadual da Saúde. Desses casos, 80% representam eventos isquêmicos e 20% são hemorrágicos (com sangramento).

Já no caso dos enfartes, os pesquisadores identificaram uma “margem térmica” de proteção para o organismo: dos mais de 12 mil óbitos ocorridos na cidade por esse tipo de doença cardiovascular, em 2009, foi constatada uma mortalidade menor quando a temperatura estava amena, entre 21,6ºC e 22,6ºC.

“Temperaturas extremas estão relacionadas a doenças cardiovasculares. O frio ou o calor intenso prejudicam o corpo”, justifica o cardiologista do Hospital do Coração e do Instituto Dante Pazzanese, Celso Amodeo.

A temperatura entre 21,6 e 22,6ºC, avalia Amodeo, pode ser benéfica porque é natural para o organismo e não requer dele grande esforço para a manutenção do metabolismo. “Proporciona condições favoráveis para o bom funcionamento cardiovascular”, diz.

“As coronárias podem ter espasmos (nas baixas temperaturas), uma contração do vaso em que já existem placas de gordura. Se uma se romper, forma um coágulo e entope a artéria”, explica o coordenador do Departamento de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), Ivan Okamoto. Nos dias frios, segundo dados da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, o número de enfartes cresce 30%.

A maior umidade relativa do ar é outro fator de proteção cardíaco apontado no estudo. “A umidade baixa está relacionada a processos inflamatórios, que estimulam a instabilidade das placas coronárias”, explica Amodeo. Já a poluição apareceu no estudo como fator de risco cardiovascular, confirmando uma relação já encontrada em pesquisas anteriores.

Santos ressalta que os resultados do levantamento são preliminares e que novos estudos deverão ser feitos a partir dos achados. “A temperatura ou a umidade não são fatores únicos para essas doenças, mas percebemos que são relevantes”, completa.

Chefe do Setor de Cardiopatia Hipertensiva e Cardiologia Experimental da Unifesp, Rui Manuel dos Santos Póvoa afirma que o estudo “pode ser um achado estatisticamente significante”. Mesmo assim, acredita que o impacto das variáveis (temperatura e umidade) precisa ser melhor detalhado.

FONTE: Estadão.com.br

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