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segunda-feira, 10 de agosto de 2026
Imprensa

Um repórter pode contestar as declarações do entrevistado?

Por Carlos Brickmann

Um repórter pode contestar as declarações do entrevistado?

Esta pergunta foi feita por um jornal americano e virou tema de debates – nos Estados Unidos, a propósito, a impressão é de que o consumidor de informações não quer que o repórter conteste declarações do entrevistado (ver, neste Observatório, “O repórter deve contestar um entrevistado que mente ou distorce fatos?“).

No entanto, discutir o que diz o entrevistado não é uma escolha do repórter: é obrigação. Não é para bater boca, nem para brigar; é, entretanto, essencial que o repórter faça objeções. De maneira educada, sim, mas firme e precisa. Se o entrevistado insistir em sua versão, que a entrevista continue, sem que o assunto se estenda interminavelmente; mas, na versão editada, na versão que vai para o público, deve constar não apenas a contestação, mas também a reação da fonte.

Ao fazer uma entrevista, o repórter tem um mandato, uma procuração do consumidor de informações. Deve buscar a verdade, em nome da opinião pública. É um profissional, não um gravador destinado apenas a reproduzir a fala da fonte.

Um caso interessantíssimo está acontecendo agora, no aniversário do assassínio do prefeito de Santo André, Celso Daniel. Um irmão de Celso Daniel diz que o hoje secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, informou à família que levava dinheiro de propinas arrecadadas na Prefeitura para o então presidente nacional do PT, José Dirceu. Carvalho mostrou documentos comprovando que o irmão do prefeito assassinado desmentiu, em juízo, ter recebido essas informações (e, aliás, por que teria dado a pessoas que, embora irmãos, não eram próximas do prefeito, informações a esse respeito?). O irmão se limitou a dizer que não havia desmentido nada – e a imprensa, apesar do documento judicial, aceitou numa boa sua negativa.

O debate do repórter com o entrevistado deve, claro, seguir as boas normas de lealdade. A contestação deve ser aberta – como a da âncora do SBT-Brasília, Neila Medeiros, que, revoltada com declarações inaceitáveis do entrevistado, criticou-o no ar, de maneira articulada, precisa, embora com indignação (ver “Jornalista defende trabalho da imprensa“). Mas não pode ser aquela contestação dissimulada, com caras e bocas, em que os apresentadores mostram ao público que não gostam do que ouvem, mas também não abrem se abrem à discussão. Debate franco, sim; muxoxos e ar de desagrado, não.

FONTE: Observatório da Imprensa

Acélio Trindade

Acélio Trindade

Autor no Blog do Acélio.

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