Uma réplica ao cidadão GLAUBER FRAZÃO

Lançar mão da mídia entendendo-a como o mais poderoso instrumento na atualidade constitui tarefa fundamental de todo intelectual comprometido com a liberdade, com a consciência e com a informação correta. E como sujeito preocupado com as questões políticas, sociais, econômicas, culturais e etc., estou sempre alerta para debater e/ou discutir um bom tema, e, neste sentido, navegando na internet – especialmente o blog do Acélio, deparei-me com um texto de autoria do Sr. Glauber Frazão, cujo título é: “Só depende de nós”.

Professor Jacinto Junior
Professor Jacinto Junior

Esse título me trás à memória – isto, nos idos anos da década de 1980, particularmente, o ano de 1989, período das primeiras eleições livres deste país depois da queda do famigerado regime militar – um texto da lavra de um ícone da cultura brasileira: Plínio de Arruda Sampaio Júnior – ex-deputado federal pelo PT/SP, membro dissidente do PT e, atualmente, é membro do Psol, ex-candidato à presidência da República pela mesma legenda em 2010; publicado na Revista Teoria e Debate com o mesmo título. Lógico que, o texto de Plínio continha uma avaliação macro da realidade brasileira e uma defesa intransigente da candidatura de Lula à presidência. Aqui temos como paralelo apenas os títulos semelhantes, pois, a avaliação entre ambos são totalmente díspares. Contudo, gostaria de emendar um comentário a respeito do texto em questão, sem, no entanto, ferir moral ou eticamente a persona grata do autor.

Entendo ser importante e, até mesmo, fundamental tecer críticas pontuais construtivas para enriquecer o debate e fortalecer a própria democracia como instrumento elementar da liberdade de opinião e expressão. Pois bem, entremos no foco principal.

O Sr. Glauber Frazão inicia seu texto colocando em evidência a palavra democracia e, em seguida, busca defini-la com a ajuda do dicionário. Logo mais adiante afirma que: “Teoricamente analisando é Lindo!!! Entretanto, na prática, não é o que se observa.”; ele percebe que há uma contradição em relação à democracia no sentido de sua plena realização (teoria e prática).

Como ele consegue chegar a essa primorosa conclusão?  Segundo sua visão, um dos elementos são as diversas candidaturas que se apresentam numa disputa eleitoral, literalmente diz: “O contraste surge a partir das candidaturas, visto que os futuros representantes do povo não expressam a verdadeira vontade popular”. Ora, de um lado, temos o amplo direito e a liberdade de nos candidatar – logo, temos uma gama de sujeitos representando os diversos segmentos sociais prontos para defender tais interesses e, nesse processo surge o antagonismo histórico entre o capital e o trabalho; ou seja, uma luta de classes – de outro, a sociedade civil precisa compreender essa natureza política da disputa pelo controle do poder político e isso, ocorre sistematicamente por meio das eleições, instrumento esse criado pela burguesia como elo fundante da democracia e da liberdade. Sr. Glauber Frazão, vosso equivoco reside apenas em não apontar esses elementos centrais de uma disputa política.

Outro aspecto levantado pelo Sr. Glauber Frazão que considero importante nessa linha de raciocínio é a campanha eleitoral, segundo ele: “Ainda que haja candidato, realmente, voltado ao desejo do principio democrático, este será excluído do processo eletivo, por não reunir “condições econômicas compatíveis” com o desejo de nosso eleitorado”. Permita fazer uma irrisória correção no que classificas de “condições econômicas compatíveis”, na verdade, seria interessante que apontasse como principal empecilho a esses candidatos economicamente inviáveis devido ao nível absurdo que assume algumas candidaturas milionárias – que chega a afrontar o cidadão eleitor com sua gigantesca força econômica -; entendo que não existe ‘exclusão’ ou inviabilidade de determinado candidato a uma disputa eleitoral; o que de fato ocorre é um processo estratégico e tático dos agrupamentos burgueses de inculcar essa ideologia no cidadão comum que um representante destituído de riqueza não pode postular o poder político local. Portanto, Sr. Glauber Frazão, mais uma vez, incorres num lapso elementar. É preciso enfatizar explicitamente que há uma disputa política entre duas classes distintas e antagônicas: a burguesia (minoria) e a classe trabalhadora (maioria).

O Sr. Glauber Frazão procura explicar o erro que os membros da classe trabalhadora cometem (que ele insiste denominar apenas como eleitor) dizendo: “Enquanto nossos eleitores não se conscientizarem que “voto” não é moeda de troca, a Democracia vai permanecer na teoria”. Penetrar nesse mundo não é tarefa fácil, pois, precisamos antes de tudo ter uma noção clara da história e seus eventos mais marcantes. Ao delimitar sua fala colocando o “voto” como élan mistificador da cultura corrosiva dominante, ele consegue imprimir uma noção de liberdade exigindo que o eleitor rompa com esse ciclo miserável de dominação; na verdade, ele tenta opor o eleitor contra o discurso da própria classe dominante em que a relação democrática social e política se baseiam somente na “troca de favores”. É preciso radicalizar o discurso da classe trabalhadora de que é possível sim, é viável sim, um candidato pobre concorrer às eleições; o que não pode haver é tal candidato envergonhar-se de si mesmo enquanto candidato sem uma gigantesca estrutura econômica para digladiar com os demais candidatos representantes da burguesia.

O ponto chave desse processo de luta e de resistência popular deve ser discutido com mais profundidade, autonomia e, sobretudo, coragem e ter um candidato.

Novamente o Sr. Glauber Frazão lembra que: “Estamos em um ano eleitoral e as negociações de bastidores vão de vento em popa. Dignidade é um patrimônio moral que não tem preço, precisamos, urgentemente, fazer com que nossos eleitores entendam isto”. Esse alerta é fundamental para toda a classe trabalhadora e, penso que, ela precisa se desatar de seus grilhões e opressores.

De fato, o homem que possui decência deve preservar sua dignidade como uma muralha intransponível. Porém, é preciso dizer que esse elemento de conscientização já não constitui nenhuma novidade no sentido de clarear ou jogar luz sobre a importância do indivíduo agir com firmeza e independência política, agir com cidadania negando o ato promiscuo da famosa “ajudazinha” que fomentará a miséria e o domínio permanente da classe burguesa de um lado, e, de outro, o enriquecimento dos burgueses com o nosso dinheiro ao chegar ao poder. E, por fim, o

Sr. Glauber Frazão evoca com uma contundente firmeza de espírito que povoa a cabeça daqueles que controlam o poder político e assenta o seguinte: “Nobres ideais exigem a prática de virtudes e não convivem com ambições viciadas e imorais defamílias” que insistem em fazer da “política” um trampolim para se “dar bem” na vida. Essa cultura e filosofia política é um espelho que reproduz em todo nosso país o modo como é constituída  a relação política entre a sociedade civil e aqueles que supõem serem os  mandatários do “pedaço”. Essa cultura e essa filosofia são por demais nojentas. Famílias que desejam comandar por toda a eternidade o município, o estado e a Nação.

O nosso país é um laboratório perfeito que transpõe as vicissitudes da democracia e do tempo, contudo, o status quo torna-se intocável. A classe trabalhadora precisa compreender que ela é quem detém o poder e a força política e não a classe dominante, é a classe trabalhadora que determina o seu próprio destino, basta querer fazer a mudança que tanto deseja, é como afirma o título de seu texto: só depende de nós.

O Sr. Glauber Frazão propõe um questionamento atualíssimo – apesar de o pressuposto jurídico datar do século 17, proposto pelo filósofo, político e escritor francês Charle-Luis de Secondat (1689-1755) conhecido mundialmente como Montesquieu, com o seu clássico L’Esprit des Lois (1748) promovendo uma divisão dos poderes que até hoje este modelo é adotado por várias nações, inclusive, o Brasil, um detalhe: o seu livro foi o pavio incendiário para a declaração da independência norte-americana. Apesar disso, ele era um ferrenho defensor da Monarquia liberal. Ele define três formas de governo: a) Monarquia=honra; b) Despotismo=medo; e c) República=virtude. Mas, deixemos de lado esses elementos intrínsecos e palpitantes para adentrar na argumentação do Sr. Glauber Frazão que afirma: “Do que vale o bem estar da “minoria”, se a maioria é necessária para a aquisição do poder, onde fica a divisão de poderes e o controle da autoridade?” Essa interrogação merece um pequeno esclarecimento sob o ponto de vista político: o fator determinante não é saber definir o poder e sua apropriação, mas, quem e como fazer uso correto dele em beneficio daqueles que precisam efetivamente e quem precisa efetivamente das benesses desse poder são os trabalhadores que, por sua vez, se constitui na maioria.

Outro aspecto a ser observado é que o processo condutor do político para governar o aparelho de estado ocorre por intermédio da votação e é exatamente esse ponto que a classe trabalhadora ainda não compreendeu a sua importância como instrumento de mudança se assim o quiser.

Entretanto, um contingente considerável de membros da classe trabalhadora ainda se disponibiliza para dar suporte a candidatos representantes da classe dominante como se este fosse um leal defensor e representante de classe para a classe trabalhadora; tal relação confusa inibe um caminho mais seguro ou um porto onde atracar suas esperanças.

Essa relação promíscua contribui incisivamente para gerar um ambiente de desconfiança da classe trabalhadora em relação ao seu verdadeiro representante enquanto militante político por conta de tantos atos deploráveis e ilegítimos que se traduzem na impunidade dos atores criminosos.

Muitos trabalhadores não conseguem se controlar e acabam cedendo à corrupção; e, isso, deveras promove um corte profundo na democracia, na esperança e na crença do povo; surge na verdade, um sentimento de impotência e impossibilidade de crer em um candidato sério, com uma história de compromisso e de luta; preferem acreditar em candidatos da classe dominante com seu discurso pomposo e mentiroso.

Ora, se o atual estágio cultural – a prática do aliciamento, da corrupção e do apadrinhamento político – permanecer como estribeira não haverá e nem tampouco existirá condições materiais para que o povo controle o governante que não tem um compromisso com a cidade e com a classe trabalhadora. O caráter democrático é posto de lado e, assim, a velha fórmula burguesa de fazer política ganha cada vez mais, espaço e se fortalece graças ao apoio de um contingente de membros pertencentes à classe trabalhadora a um governante da direita neoliberal.

De qualquer forma, é fundamental a escrita na perspectiva do esclarecimento e, isso, o Sr. Glauber Frazão está contribuindo para o amadurecimento da classe trabalhadora.

4 comentários sobre “Uma réplica ao cidadão GLAUBER FRAZÃO”

    1. Caro cidadão José Alberto, a réplica que elaborei foi com o intuito de esclarecer alguns pontos nodais que o Sr. Glauber Frazão esquecera de apontar e que eram necessários serem emitidos para que o povo saiba o verdadeiro sentido da luta de classe existente no interior do processo político. Contudo, sabendo, agora, que facção política ele pertence (à do ex-prefeito dessa ilustre cidade), serei mais comedido e também, menos complacente com um discurso não verdadeiro. É sempre bom bom conhecer a vida pregressa dos indivíduos para não cometer torpezas e ajuizar comentários inadequados; ainda que necessário (do ponto de vista da crítica). Cordiais saudações e obrigado pela informação.

  1. Vixe num pode comentários em inglês tbm? Mas aprender outros idiomas não é salutar para o engrandecimento cultural? Temos que elevar o nível dos leitores do blog! Poderíamos então lançar uma campanha: Matricule-se em uma escola de idiomas! Matricule-se em um curso de Português e Redação!Que tal?

  2. Tenho plena convicção que José Alberto sequer leu duas linhas da réplica de Jacinto. Independentemente de ser Nonato ou Não, é extremamente inadimissível ser apoiador deste governo que aí está a sucatear nossa cidade.

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